alunaespecial

“É próprio do ser humano aprender através de erros.

De certa forma, nossos erros são convenientes a outros, porque estes também aprendem através deles. Freqüentemente pensamos ter cometido um grande erro, mas depois verificamos que foi uma bênção “.

Bert Hellinger

 

 

 

Está experiência vivi com uma aluna muito querida que estarei chamando de “M”, sua mãe de “T” e seu pai de “P”.

 

“M” foi minha aluna durante cinco anos, nosso vínculo era muito forte e continuamos muito ligadas mesmo depois da mudança de professor. Uma aluna classificada como deficiente mental, com vários problemas de comportamento e relacionamento. Sempre me buscava para ajudá-la a resolver suas dificuldades, sua mãe colocava que não sabia o que fazer se um dia eu saísse da escola, pois “M” me amava e eu sabia como conduzi-la sem dificuldades. Quando assumi o cargo de diretora da escola, os conflitos envolvendo esta criança continuaram e com o tempo passou a me chamar de mãe, percebi muitas vezes que fazia isso também na frente de sua mãe. Eu dizia para ela que sua mãe é a “T”, mas não adiantava. Algumas vezes quando a mãe me entregava “M” na entrada eu dizia para ela dar um beijo na mãe e se despedir, mas ela dizia: “não. Eu gosto da Hellen, ela é minha mãe”. Sua mãe dizia que estava tudo bem, que ela era assim mesmo, mas no meu íntimo sentia algo estranho com estas colocações que se repetiam.

 

Em um dos workshops que participei o facilitador colocou algumas questões relacionadas a escolas que me tocaram profundamente, senti naquele momento que este era o caminho para a solução do que estava vivendo com “M”.

 

Quando “M” me encontrou na escola começou a falar tudo outra vez. Disse a ela que teríamos uma conversa e que gostaria que ela me ouvisse, olhei em seus olhos, visualizei meus pais atrás de mim e visualizei seus pais por detrás dela e silenciei. Ela tentava desviar o olhar, mas acabou se concentrando. Disse para ela: – “Sua mãe é a” T “e seu pai é o” P “e graças aos dois hoje eu tenho você como aluna nesta escola, a” T “é a mamãe certa para você e o” P “é o papai certo para você, eles lhe deram a vida e tem o meu respeito do jeito que são. Eu fui sua professora, hoje estou diretora da escola e continuo gostando de você e sempre que necessário vou agir como a diretora da escola”.

 

No inicio ela estava resistente, mas depois percebi sua emoção e disse para ela: “Como você se sentiria se sua mãe dissesse para você que não queria você como filha, que queria outra filha?” Ela me respondeu com a voz engasgada: ”mal”.

 

Naquele momento senti o fluir do nosso amor, e a força deste trabalho na escola quando amamos as crianças através de seus pais. Sei que estive em uma posição de arrogância por ignorância e acredito que de forma inconsciente estava me colocando acima da mãe, como se fosse mais importante e melhor que a mãe da criança. Depois desse momento tudo se acalmou. “M” passou a me chamar pelo nome e sua mãe tinha uma expressão de alívio como se tivesse recebido a filha de volta e aos poucos foram diminuindo as idas a minha sala e ela se controlava melhor quando me encontrava.

 

A maioria das pessoas que trabalham com crianças especiais pensa que os pais não conseguem lidar bem com os seus filhos. Muitos professores demonstram sentimento de pena, outros inconscientemente demonstram isso em suas ações e colocações.

 

Segundo Hellinger (2007) “… o professor quando vê os alunos também vê seus pais por detrás deles. Toma os pais das crianças para dentro de seu coração, independente de como sejam, pois todos os pais são perfeitos, no seu papel de pais… um professor respeita o que tem de especial em uma família, quando encontra uma criança, sem ter a fantasia de que essa família deveria ser diferente do que ela é”.(p.97)

 

 

Hellen Vieira da Fonseca Teles

 

 

Referencia Bibliográfica:

Hellenger, Bert. Histórias de Amor; tradução de Lorena Richter. – Filipa Richter. –Patos de Minas: Atmam editora, p.97, 2007.

 

 

 

 

 

 

Troca de liderança

 

 

“Quando o passado é respeitado como é e como foi, sem com que ele venha a ser engrandecido ou diminuído, então o passado servirá ao futuro de bom grado”.

Bert Hellinger

 

 

No decorrer do ano de 2006 foi necessária mais uma troca de coordenador em uma das áreas de atendimento, muitos sentimentos vieram à luz durante a reunião, os quais não relatarei aqui, direi apenas que ficou definido um coordenador temporário até o encerramento do ano letivo.

 

Ao final da reunião fiz a proposta para fazermos um exercício antes de encerrarmos aquele momento. Pedi a todos os professores que escolhessem um colega e formassem uma dupla. Que ficassem de frente um para o outro e olhassem-se nos olhos. Disse que eles iriam trabalhar representando outra pessoa. Pedi que decidissem quem representaria o professor e quem representaria o coordenador, que ficassem em silêncio esperando o comando, apenas olhando nos olhos.

 

Começamos com o representante do professor dizendo para o representante do coordenador:

 

— “Eu não gosto de você”.

 

— “Eu não aceito você”.

 

– “Eu não acredito no seu trabalho”.

 

– “Se estivesse em seu lugar faria melhor”.

 

 

Fiz a pergunta aos que estavam representando o coordenador: — “Como se sente o coordenador ouvindo o que o professor disse?”

 

 

Quem estava representando o coordenador respondeu: — “Péssimo, dói por dentro, muito mau, é horrível”. Pedi que se concentrassem outra vez e que iríamos refazer.

 

O representante do professor olha para o representante do coordenador e diz:

 

— “Eu gosto de você”.

 

– “Eu concordo com você do jeito que é”.

 

— “Eu acredito em você”. “Se houver algo que eu possa fazer para colaborar com o trabalho, estou disposto”.

 

 

Perguntei a todos que representavam o coordenador como estavam se sentindo naquele momento: – “Estou emocionado. Aliviado e leve; mais forte para atuar”.

 

 

Fizemos uma breve reflexão, de como nossos sentimentos poderiam estar interferindo em tudo que havíamos falado naquele dia e falamos também sobre o respeito à hierarquia e como o fato de estar feliz no meu lugar fazia tudo ficar mais leve. Foi interessante observar a recepção para o novo coordenador. Todos estavam alegres, demonstrando colaboração e respeito pelo coordenador. Como este coordenador era temporário ele ainda teve algumas dificuldades, mas para o coordenador do ano seguinte foi bem mais leve.

 

Segundo Jan Jacob Stam (2006), “Às vezes existem lugares sobrecarregados em uma organização, podendo ser desde uma simples função a um departamento inteiro. Qualquer pessoa que assume a função parece não dar certo ou não consegue ficar por muito tempo”. …Um lugar pode se tornar sobrecarregado quando, por exemplo, uma pessoa deixa o emprego de maneira desagradável. Isso pode acontecer através de um infortúnio, um conflito não resolvido, um acontecimento como um acidente ou pelo falecimento do dono anterior daquela função ou ainda quando alguém simplesmente é excluído ou demitido injustamente “.(p.39, 40).

 

Realmente estas são questões que aparecem também dentro de uma escola e o trabalho sistêmico nos faz olhar para determinadas funções em que as trocas são constantes, trazendo a luz à possibilidade de soluções.

 

 

Hellen Vieira da Fonseca Teles

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