andromeda

Considerações sobre os representantes na constelação familiar

“Sei que os representantes são muito mais importantes do que havia pensado no começo.  Estão vinculados com um campo mais amplo.  Há outra força que aqui assume a condução: é o movimento da alma.”

Bert Hellinger[i]

Temos muita coisa registrada sobre as constelações familiares, no que se refere ao como se conduzir uma constelação, o papel do constelador e daquele que irá constelar. Mas e quanto aos representantes? Temos poucas alusões sobre esse lugar que aparentemente sugere ser menos importante… mas é justamente através deles que se apresenta aquilo que estava oculto. E é na presença desses representantes que o constelado tem a chance de reencontrar com seus mortos, com seus desafetos, com seus medos, com suas doenças… Diante desses “estranhos” tão familiares é possível dar o primeiro passo em direção à cura. Aquilo o que ainda não foi possível dizer até então, torna-se próximo.  O abraço impossível ganha presença e o olhar tão esperado acontece. Muitas vezes o que se manifesta é justamente a distância que é tão difícil de aceitar, mas que é extremamente sentida e percebida. Confirma, esclarece, o que até então não era possível ver.

Sendo assim, seriam eles apenas “representadores” das emoções dos outros? Se assim for, o quanto eles realmente representam dos outros? Será que os representantes não estariam representando a si mesmos?

Pensando na palavra representação, re-presentar pode significar tornar presente de novo. Talvez fosse até melhor a palavra “apresentação”, porque não é de novo. A constelação não mostra o que já se sabe, ela revela o novo, do mesmo. Ela apresenta para o constelado, ela revela como suas relações afetivas se dão, em laços já conhecidos.  Talvez a palavra original em alemão expresse melhor isso, mas gostaria então de tomar a palavra representante, neste texto, com o significado de “apresentante” para guardar o sentido do novo.

Considero o constelador como aquele que precisa estar com toda a sua sensibilidade de prontidão, pois há que estar atento para os múltiplos movimentos que ocorrem durante a constelação.  Apesar dele estar ali principalmente dirigido ao constelado, não pode perder de vista os representantes.  Como um maestro, o constelador rege todos os “instrumentos” daquela melodia que é ouvida e executada ao mesmo tempo, por todos. Ninguém é platéia passiva numa constelação.  Mesmo os que não estão representando ativamente co-respondem ao campo. Não raro há pessoas que dormem durante uma constelação que está acontecendo ali diante dos olhos, o que revela certamente, o modo de sentir aquele campo que ele também pertence.  Assim, o sono, o tédio, a pressa, o medo, o choro… enfim, os diversos sentimentos que atravessam a “assistência” da constelação, fazem parte também do campo.  Mais do que fazer parte, todos constituem e são constituídos pelo campo.

Assim, há algumas situações que ocorrem numa constelação e que requerem uma boa atenção por parte do constelador, pois ele precisará estender seu olhar para além do constelado. Longe de querer esgotar a riqueza de circunstancias possíveis, seguem comentários como tentativas de compreensão destes fenômenos:

  1. Quando o representante sente e manifesta algo completamente diferente do que foi relatado pelo constelado – o representante pode estar seguindo o que ele acha que tem que manifestar (por conclusão racional) e assim distrai-se da essência do campo, como se ali não estivesse, permanecendo imerso em seus pensamentos.  Outra hipótese é que o constelado imaginou para si algo diferente do real, e nega-se a olhar, concordar com o que se mostra na constelação, que é completamente diferente dos seus desejos.  Abre-se aqui uma boa oportunidade de se trabalhar a presença no representante ou de se trabalhar o enfrentamento do real com o constelado.
  2. Quando o representante não vê nada do que acontece na constelação – aqui revela um estado de entrega, de confiança no constelador e no campo, em que o representante abre mão de controlar e permite que perpasse por si a energia do campo, deixando-se guiar por ela.
  3. Quando o representante faz um movimento repetido em todas as constelações – aqui se revelam dois fenômenos simultâneos: justamente o que ele repete é uma reação que revela muito sobre ele mesmo e se o representante puder olhar com mais atenção para esse movimento repetido, compreenderá algo novo sobre si mesmo; pode também expressar pouca entrega dele ao campo, o que o mantém no recolhimento a um estado já conhecido para ele, mesmo que de modo distraído. Mas jamais é algo que pertence somente ao representante. É como se ele se restringisse a expressar somente aquela determinada força do campo, e as demais se mantivessem retraídas.
  4. Quando o representante tem vontade de fazer diferente do que está sentindo – aqui o representante parece resistir ao campo; pode ser por vergonha de expressar, pode ser porque não considera adequado, etc… De qualquer modo, revela falta de entrega, e o constelador deve convidá-lo a deixar-se levar pelo campo.
  5. Quando o representante não tem vontade de participar – aqui pode ser que o representante já esteja sentindo o campo ao modo da evitação.  Seja por identificação com suas historias pessoais ou não.  Pode ser que participando, ele contribua justamente com essa “não vontade”, que pertence a alguém da constelação propriamente dita.  Mas pode ser que essa resistência a participar esteja revelando muito mais sobre ele do que sobre o constelado. Nesse caso, torna-se visível que ele deve se afastar do campo a fim de que o representante não ultrapasse os seus limites.
  6. Quando o representante passa mal depois que acabou a constelação – aqui a situação mostra que não houve o distanciamento necessário ainda do campo.  O representante precisa de ajuda e de um pouco mais de tempo, para encontrar seu eixo próprio.  Nem todas as pessoas experimentam o tempo de uma constelação da mesma maneira. Há algumas que precisam de repouso imediato ao término da constelação para que possam se sentir bem.  De qualquer modo, esse “ficar preso” pode revelar algo importante de ser trabalhado pelo representante, caso isso seja um acontecimento freqüente.
  7. Quando o participante sente algo antes de começar a constelação ou antes de ser convidado para ser o representante – aqui está claro que uma constelação não se inicia ao mesmo tempo em que ela começa. O campo pode se estabelecer antes do constelado começar a falar, e assim, os representantes ali presentes podem já sentir o movimento.  E se forem perceptivos, sentem-se já tão dentro da constelação que, quando são escolhidos, as sensações já se encontram presentes há um tempo.

Essas são algumas situações que nos ajudam a repensar as perguntas iniciais: o quanto eles realmente representam dos outros? Será que os representantes não estariam representando somente a si mesmos?

Sem complicar as possibilidades de resposta, seria pertinente talvez acrescentar mais uma pergunta: o quê exatamente num campo, constitui-se como sendo o eu e o outro? Considero possível diferenciar, mas jamais separar. Nada acontece comigo sem o outro, e vice-versa. É junto dos tantos outros que eu me constituo como sendo o eu mesmo.  Diria que a gente recolhe, emerge, de inúmeros campos que partilhamos durante toda a nossa vida, o quem eu sou.  Jamais se completa ou termina esse processo de aprontamento de si mesmo.  Portanto, num campo determinado que é o da constelação, não surge um eu que eu nunca fui, nem um eu que sempre fui, de modo absoluto.  A cada historia que participo sendo representante, apresento-me nos outros ao mesmo tempo que aberto aos outros apresento-me a mim. É um processo simultâneo, contínuo, que prescinde da nossa vontade. Simplesmente acontece.

Ana Tereza Camasmie

[i] Hellinger, B.  & Ten Hovel, G.  Un Largo Camino, diálogos sobre el destino, la reconciliación y la felicidad.  Buenos Aires: Alma Lepik Ed., 2006.