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Bert Hellinger sobre Respeito

Bert Hellinger sobre Respeito

 

“Respeitar significa, antes de tudo, reconhecer. Respeitar uma pessoa é reconhecer que ela existe, que é como é, e que é certa da maneira como é. Isso pressupõe que eu me respeite da mesma forma que eu reconheça que existo, que sou como sou e que, tal como sou, também sou certo.

 

Quando respeito a mim e ao outro dessa maneira, renuncio a construir uma imagem de como deveríamos ser. Sem essa imagem não existe juízo sobre o que seria melhor. Nenhuma imagem construída se interpõe entre mim e a realidade, tal como ela se mostra.

 

Isso possibilita um segundo elemento, que também pertence ao respeito: eu amo o real, tal como ele se mostra. Isto significa, antes de tudo, que me amo tal como sou, amo o outro tal como ele é, e amo a maneira de sermos diferentes.

 

O respeito inclui ainda um terceiro elemento, talvez o mais belo: eu me alegro com o real, tal como se manifesta. Alegro-me comigo tal como sou; alegro-me com o outro, tal como ele é, e alegro-me com o fato de que sou diferente dele e ele é também de mim.

 

Esse respeito mantém distância. Ele não invade o outro e não permite que o outro me invada, me imponha alguma coisa ou disponha de mim de acordo com sua imagem. Ele torna possível que nos respeitemos sem nada querer um do outro.

 

Quando precisamos ou queremos algo, um do outro, devemos ainda questionar um quarto ponto: nós nos promovemos mutuamente ou inibimos o desenvolvimento nosso ou do outro?

 

Se, da forma como somos, impedimos nosso desenvolvimento ou o do outro, o respeito nos separa, ao invés de nos aproximar. Nesse caso, devemos cuidar para que cada um siga o seu próprio caminho e se afaste. Com isso, o amor e o contentamento por mim e pelo outro se aprofundam, em vez de diminuir. Por quê? Porque o amor e a alegria são tranquilos, como o respeito.”

 

Bert Hellinger

Caminhos para os casais

As constelações familiares também funcionam sempre como terapia de casal. Juntamente com os processos entre pais e filhos, a relação entre o homem e a mulher é o coração da Psicoterapia. É bem verdade que, nos chamados “movimentos da alma”, nosso horizonte se estendeu para além da constelação familiar, abrangendo nossa inserção em contextos existenciais mais amplos: a relação entre vivos e mortos e entre agressores e vítimas, a guerra, conflitos de nacionalidades e religiões. Não obstante, as constelações voltam sempre a afetar em seus efeitos a relação conjugal e as relações familiares.

O sucesso do amor entre o homem e a mulher talvez seja o nosso anseio mais profundo, e o fracasso desse amor faz parte de nossos medos e sofrimentos mais profundos. Surpreende-me sempre constatar que a pressão pelo sucesso das constelações nos grupos para casais é muito maior do que nos seminários para pessoas doentes, onde freqüentemente se trata de vida e de morte. No aconselhamento de casais percebe-se também, de modo especial, uma alta expectativa dirigida ao terapeuta ou ao aconselhador. Pois trata-se de decisões sobre o prosseguimento da vida em comum e das conseqüências que acarretam para os parceiros, os filhos e as bases materiais da vida. Trata-se também das mágoas e dos medos associados ao amor, onde somos ainda mais vulneráveis do que no tocante à nossa integridade física.

Na seqüência, abrirei uma perspectiva de conjunto sobre os caminhos da terapia de casal, a partir da experiência com as constelações familiares e do trabalho com os fatores que as condicionam.

Pressupostos para o bom êxito de uma terapia de casal

Os casais procuram ajuda em suas necessidades, mas freqüentemente com idéias que estragarão qualquer ajuda se forem acolhidas pelo terapeuta. O denominador comum dessas idéias é o abandono da responsabilidade pelo sucesso do aconselhamento. Neste particular, a fantasia usual de um ou de ambos os parceiros é que algo se deteriorou em seu relacionamento e que cabe ao terapeuta, como perito e especialista, repará-lo em sua “oficina”. Ou então o casal procura um juiz para resolver o seu caso, alguém que ouça os argumentos das ambas as partes e dê o seu justo veredicto. Alguns buscam no terapeuta, de um modo mais pessoal, uma autoridade cheia de amor que, à maneira de um aliado, um pai ou uma mãe, saiba o que se deve fazer e se imponha ao outro parceiro.

Conflitos de casal assumem freqüentemente a forma de um desacordo em decisões relevantes, onde cada um procura mudar o outro para que se ajuste a sua experiência de vida, a seus desejos e convicções. Como, apesar de intensos esforços, não lhe bastou para isso a força de sua persuasão, ele transmite ao terapeuta, de forma aberta ou velada, o seu real desejo: “Convença-o você, eu não consigo”. Mormente no atendimento individual, quando apenas um dos parceiros procura conselho, transparece este apelo: “Meu parceiro não me dá o que preciso, não me dá atenção, não está disponível para mim. Por favor, dê-me atenção, esteja disponível para mim, seja para mim uma pessoa familiar e confiável”. Assim, o terapeuta é solicitado a preencher uma lacuna para a satisfação das necessidades infantis ou conjugais do cliente.

A montagem da constelação familiar, em sessão de grupo ou na consulta individual, com a preservação da atitude fenomenológica que fundamenta esse trabalho, ajuda o terapeuta a não acolher esses desejos com a intenção de ajudar o casal. Em vez disso, ele deve manter a atitude imprescindível para se alcançar uma solução. Ele entra em sintonia com a alma ou com o campo de relacionamento do casal. Acompanha a vibração do sistema do relacionamento, através da constelação ou de outro método que lhe permita ver e entrar em contato. E faz com que se manifeste, através daquilo que se mostra, algo que seja importante para o casal e o faça avançar. O terapeuta apenas transmite uma indicação ou um conselho essencial, e depois se retira. Não acompanha o processo do casal até a solução. No máximo, comporta-se como um navegador experimentado que, de acordo com o objetivo do casal, indica o caminho ou mesmo assume o comando em seu trecho inicial.

Terapeutas não são mecânicos, juizes, correligionários, pais ou familiares. Um aconselhamento de casal não tem por função modificar a personalidade dos parceiros. Ele permanece sempre incompleto e visa apenas o que é exigido para o próximo passo. Permanecem com o casal o objetivo e o caminho da solução, bem como a responsabilidade e a força para resolver o problema. Assim se preserva a dignidade do casal, bem como a do terapeuta.

O que o aconselhador pode fazer de mais importante pelo casal em sua necessidade, antes mesmo de abrir-lhe uma nova perspectiva sobre sua mútua relação, é interromper os padrões que impedem e destroem o relacionamento. Da mesma forma como recusa acolher as idéias dos parceiros sobre a maneira de ajudá-los, ele interrompe rapidamente os padrões de pensamento e de comportamento que são parte do problema e não trouxeram ajuda até o momento. As constelações familiares, seja em grupo ou em sessões individuais, são uma grande ajuda metódica, já pelo simples fato de que afastam imediatamente os parceiros de discursos estereotipados sobre o relacionamento, levando-os a um olhar conjunto sobre a constelação e, consequentemente, sobre os movimentos mais profundos que fazem progredir o seu relacionamento.

Soluções com vistas às ocorrências dentro do relacionamento do casal

A atenção do aconselhador ou do terapeuta deve se voltar inicialmente para o que ocorreu na história do casal, investigando o que aconteceu por obra do destino ou por responsabilidade pessoal de um ou de ambos os parceiros e os levou aos limites de seu relacionamento. Cito aqui alguns pontos mais importantes, com breves exemplos.

Vínculos anteriores não honrados

Relacionamentos anteriores que criaram vínculo através de um profundo e marcante exercício da sexualidade e foram desfeitos com mágoas ou sentimentos de culpa, pelo menos de um dos parceiros, interferem nas relações ulteriores. Quando o amor, a dor e o preço pago na ligação anterior não são honrados no novo relacionamento, isso não apenas induz filhos dos novos relacionamentos a representar ex-parceiros dos pais que não foram devidamente respeitados, como também impede, muitas vezes, os novos parceiros de assumir sua relação, pelo preço que custou aos parceiros anteriores. O ciúme, por exemplo, é uma forma inconsciente de lealdade a uma ligação anterior do parceiro. Quando um homem abandona sem necessidade sua mulher para viver com uma amante, o ciúme desta freqüentemente destrói a nova ligação. Ela não consegue assumir a relação pelo preço que custou à parceira anterior, e torna-se igual a ela no medo de perder o homem para uma outra mulher.

As ligações anteriores são muitas vezes esquecidas, reprimidas ou não reconhecidas em seus efeitos posteriores. Um homem se queixou de que, depois de dois casamentos e de um terceiro relacionamento mais longo, apaixonara-se de novo, mas a mulher não queria casar-se com ele. Em sua constelação verificou-se que todas as mulheres estavam zangadas com ele, inclusive as duas filhas de seu primeiro matrimônio. Só após um persistente interrogatório ele revelou, com um gesto depreciativo da mão, que aos 17 anos tivera um amor de juventude com intenso envolvimento sexual e que, pouco depois de ter-se separado dessa moça, ela foi internada numa clínica psiquiátrica. Uma representante dessa mulher foi então incluída na constelação. Ela chorou amargamente e todas as outras mulheres tinham lágrimas nos olhos. Somente quanto o homem a encarou como seu amor de juventude, falou-lhe como a sua primeira mulher, mostrou compaixão com seu destino e a abraçou de novo com amor é que ela ficou tranqüila e sorriu. As outras mulheres também abriram sorrisos e a última delas disse: “Agora já posso pensar em casar-me com ele”. E, de fato, os dois se casaram depois.

Ocorrências traumáticas no relacionamento conjugal

Entre as ocorrências que atuam como graves ofensas na relação de um casal e com freqüência acarretam a separação, porque o destino não pode ser carregado em comum, enumeram-se: filhos prematuramente falecidos, abortos provocados, abortos espontâneos em grande número, ausência de filhos, sexualidade deficiente, doenças graves, acidentes, culpa real ou imaginária em relação ao parceiro ou a outras pessoas, ameaça às bases da existência e graves ameaças à integridade do corpo ou da alma. Com a ajuda de uma constelação é possível conjurar forças que possibilitem aos parceiros a superação conjunta do evento traumático, reforçando o vínculo ou então levando-os a aceitar o fato de que já não podem assumir em comum o destino ou a responsabilidade.

Uma mulher procurou um grupo porque buscava um caminho para dissolver o “profundo mutismo” que havia entre ela e o marido. A constelação de sua família atual mostrou realmente que havia um abismo entre o casal, o que fez com que a atenção se desviasse imediatamente dos filhos para os pais. Perguntada sobre que fatores de separação houvera entre ela e o marido, a mulher logo disse que tinha havido ainda uma quarta criança, bem mais nova, fruto de uma noitada, que eles decidiram abortar. Foi colocado um representante para essa criança, que sentou no chão, entre os pais. Os representantes dos pais olharam imediatamente para a criança, colocaram-se juntos atrás dela, puseram espontaneamente as mãos sobre sua cabeça, olhavam alternadamente para a criança e entre si e deixaram silenciosamente correr suas lágrimas. A mulher que colocara sua família estava sentada na roda e também chorava em silêncio. Os representantes dos filhos deram um passo para trás, afastando-se dos pais, e simplesmente ficaram olhando. Terminada a constelação, a mulher agradeceu e disse que ela tinha salvado a sua vida. Admirado, o terapeuta lhe perguntou o que ela queria dizer com isso. Ela respondeu: “Pouco depois do aborto apanhei um grave reumatismo e imediatamente reconheci que esta era a minha forma de expiar pelo aborto”. No dia seguinte, ela contou que, na noite do próprio dia da constelação, seu marido regressou de uma longa viagem de negócios e ela lhe contou o que se passara. Então ele se sentou no sofá, chorou muito e disse: “Eu sempre me senti muito culpado”. E passaram toda a noite conversando.

Num grupo de constelação familiar, um homem manifestou, como seu problema, que sua mulher se esquivava dele e tratava sem amor a filha e um filho mongolóide, que estava internado num asilo. Na constelação, a mulher realmente se mostrou isolada e totalmente fria. Os três filhos – pois tinha havido um outro filho mongolóide, o mais novo, falecido aos quatro anos de idade– se distanciaram dos pais, afastando-se, e a filha se colocou entre a mãe e os irmãos, como se quisesse protegê-los. O terapeuta perguntou então ao homem se tinha havido recriminações pelos filhos que nasceram mongolóides. O homem engoliu em seco e disse: “Sim, meus pais fizeram graves acusações à minha mulher, dizendo que ela trouxera da família uma péssima herança genética e jamais deveria ter-se casado comigo. E eu defendi meus pais e suas acusações”. Então o terapeuta colocou esse homem diante da representante de sua mulher e pediu aos dois que se olhassem demoradamente, realmente encarando-se. Isso entretanto era visivelmente difícil para eles. Finalmente o homem conseguiu dizer à mulher: “Sinto muito. Coloquei em você todo o peso do destino de nossos filhos doentes. Juntamente com meus pais, responsabilizei você e sua família e a magoei muito. Se você ainda puder aceitar isto, estou disposto agora a retirar minha acusação e a carregar com responsabilidade e amor, junto com você, o destino de nossos filhos”. – Então a representante de sua mulher se lançou em seus braços e chorou por longo tempo. Em seguida ela o encarou amorosamente, caminhou para os filhos e os abraçou. Quando o pai se aproximou, por sua vez, e juntamente com sua mulher abraçou os filhos, eles finalmente aceitaram a proximidade da mãe.

Na terapia de casal e nas constelações que revelam a dinâmica dos relacionamentos verificamos portanto quais são os eventos que atuam como fatores de separação num relacionamento e que caminho se oferece ao casal no sentido de carregar algo em comum, restaurar a ligação, assumir a dor da perda e deixar que o passado seja passado. E verificamos como um casal pode lidar com tais eventos. Mesmo quando for inevitável a separação, os acontecimentos que separam podem, passado algum tempo, descansar em paz e a relação pode terminar com amor e dignidade.

A ordem confiável na família

Freqüentemente o amor entre o homem e a mulher é impedido por não serem reconhecidas as condições para o crescimento da relação. Neste caso, a constelação é útil para encontrar as formas de restabelecer a ordem no sistema.

Por exemplo, uma das condições mais importantes para o bom êxito do amor é que, no processo de dar e tomar, se volte sempre a alcançar uma compensação positiva. Quem toma, também deve dar; se ama, deveria dar um pouco mais do que recebeu. Assim, através do amor, a troca recíproca é estimulada no sentido de um alto investimento de vida. A isto chamamos felicidade. Mas essa felicidade é também difícil. Ela exige muita coisa dos parceiros, que então dificilmente podem separar-se. Às vezes, alguém já não consegue sustentar a troca crescente do dar e tomar, e talvez se sinta atraído por um outro parceiro, com quem possa trocar menos. Ou então minimiza com críticas o que recebe, para sentir-se menos obrigado.

A compensação entre o dar e o tomar funciona nos relacionamentos como uma lei natural. Se o desequilíbrio cresce demais, a relação não consegue suportá-lo. Se, por exemplo, a mulher custeou para o marido uma formação superior, sustentando-o, é freqüente que ele a deixe depois, porque a compensação se torna muito grande e difícil para ele. Quando um dos parceiros traz um grande peso em bens, relacionamentos anteriores, filhos, destino, caminho de vida, e o outro não pode contrapor-lhe nada de equivalente, isso pode destruir o relacionamento depois de algum tempo. A gratidão e o amor podem aliviar parte do desequilíbrio, mas muitas vezes é difícil.

Também as ofensas exigem compensação. Enquanto o parceiro ofendido quiser permanecer inocente não haverá possibilidade de compensação. Se, inversamente, o revide for tão grande que cause ao outro um sofrimento ainda maior, a relação entrará num círculo vicioso de brigas e ofensas recíprocas, que só conhecerá pausas pelo esgotamento e geralmente sobreviverá a uma separação. A solução, neste caso, é buscar a compensação através de uma zanga ou de uma exigência menos ofensiva, que respeite o parceiro e o convide a retomar o amor, dando-lhe a oportunidade de reparar algo amorosamente e de dar algo bom de um modo diferente.

Citarei aqui, de modo sucinto, outras formas das ordens do amor. A primeira é a primazia da relação do casal sobre o cuidado dos filhos – pois o cuidado dos pais pelos filhos aumenta com o amor recíproco entre os pais. Se este é sacrificado em benefício do cuidado com os filhos, isto separa os pais e os filhos não o aceitam, porque os pais pagam o preço em sua relação.

Já nos sistemas familiares complexos, onde existem filhos de relações anteriores, a ordem correta confere primazia ao cuidado pelos filhos dessas relações. Contudo, no que toca à relação entre o homem e a mulher, prevalece o novo sistema.

Naturalmente resultam conseqüências de peso para uma relação e para os filhos quando um parceiro que tem um filho de uma relação anterior silencia este fato e não provê a criança. Para além da ignorância do fato, isso pesa também sobre o relacionamento seguinte e os filhos subsequentes.

Obviamente, é muito importante que a relação do casal seja confiável como relação entre um homem e uma mulher. Por outras palavras, o homem deve ser e permanecer homem e a mulher deve ser e permanecer mulher. Os parceiros devem sentir necessidade e confiança mútua, sobretudo no que se refere à sexualidade e ao provimento das condições de vida.

Devemos considerar também outra ordem do relacionamento, fruto da percepção que Bert Hellinger exprime com esta frase: “A mulher deve seguir o homem (em sua família, em seu país, em sua cultura) e o homem deve servir ao feminino”.

Na terapia de casal devemos, portanto, ter em vista o que está em desequilíbrio na relação e como é possível restaurar uma troca positiva e aberta para o futuro, ou então conseguir uma compensação que possibilite uma boa separação. Verificamos, ainda, o que precisa ficar em ordem na relação, de modo que ela volte a ser vivida de uma forma confiável.

Soluções com vistas a acontecimentos e destinos nas famílias de origem

Talvez o aspecto mais importante na terapia conjugal seja a percepção dos envolvimentos dos parceiros nas respectivas famílias de origem. Esta é freqüentemente a zona menos perceptível para os parceiros e é aí que as constelações lhes fornecem o maior esclarecimento. De fato, a terapia de casal sempre levou em conta a interferência de necessidades infantis insatisfeitas e de traumas de infância. Entretanto, foi somente através das constelações familiares que foram percebidos, em toda a sua amplitude e em seus efeitos trágicos, os envolvimentos profundos dos parceiros em destinos que abrangem várias gerações e em temas familiares não resolvidos. A maioria dos problemas sérios de relacionamento nada tem a ver com o próprio casal e com seu amor recíproco. Cegamente absorvidos em conflitos não resolvidos, e muitas vezes inconscientes, de antepassados das famílias de origem, os parceiros carecem de compreensão e sensibilidade em seu relacionamento e projetam ou procuram resolver um no outro o que malogrou em seus antepassados por força do destino ou por responsabilidade pessoal.

Comportamento cego de ambos os parceiros com respeito a destinos e eventos anteriores

Num grupo para casais, um deles constelou o seu sistema atual. A mulher trouxera para o novo casamento um filho de um matrimônio anterior. Na nova relação, embora recente, já havia muita briga. Na constelação evidenciou-se que a mulher tinha muito pouca consideração pelo ex-marido e uma grande esperança de que o novo marido viesse a ser um pai melhor para a filha dela. A relação entre a mãe e a filha era muito estreita, e o marido atual se sentia estranho e olhava para fora. Nessa constelação, a filha assumiu e honrou seu pai. O marido atual ficou aliviado e encontrou um lugar ao lado de sua esposa. Parecia que a constelação tinha funcionado e trazido solução.

Entretanto, à noite o marido procurou o terapeuta. Disse que se sentia muito mal e que também não revelara o mais importante: que tinham sérios problemas no relacionamento sexual, onde ela fazia muitas exigências que ele não podia satisfazer. No dia seguinte, o terapeuta fez com que o marido montasse a constelação de seu sistema de origem. Ela evidenciou que o homem tinha uma estreita ligação com sua mãe e assumia junto dela o lugar do pai. O representante do pai olhava para fora do sistema, totalmente fascinado por algo terrível. Averiguou-se que, no decurso de uma longa fuga da prisão, que durou três anos, ele fuzilou um homem que lhe barrara o caminho. Na compreensão desse evento, que foi muito comovente para o casal, evidenciou-se que o marido não ousava aceitar o amor de uma mulher nem gerar um filho, porque o regresso do pai ao lar e seu conseqüente casamento com sua mãe só foram possíveis através do assassinato de uma pessoa. Este era um importante quadro de fundo para os problemas sexuais por parte do marido. Um cartão postal enviado pelo casal, nas férias que se seguiram, dava a entender que algo se resolvera em sua relação.

Mas esta história ainda teve prosseguimento. Algum tempo depois, a mulher ligou para o terapeuta. Disse que houvera muitas melhoras no casamento e que o marido mudara muito e estava muito afeiçoado a ela. Mas ela se sentia de novo intranqüila e insatisfeita quanto à relação sexual. Então, através de duas breves ligações telefônicas, entrou em contato com uma avó que, depois da morte de seu primeiro marido, por quem tinha muito amor, tivera uma vida muito infeliz e uma relação muito insatisfatória com os homens que se seguiram. Percebendo sua estreita ligação com essa avó, a mulher conseguiu acolhê-la amorosamente em seu destino e desidentificar-se dela. Num outro cartão de férias comunicou que agora estava muito satisfeita e que estava bem com o marido.

A dupla transferência

Um fenômeno freqüente em conflitos sérios entre parceiros aparece no que Bert Hellinger chamou de “dupla transferência”. Se uma injustiça cometida entre um homem e uma mulher, numa geração anterior, não teve a devida compensação, esta é transferida para seus descendentes. Ela atinge então pessoas totalmente inocentes, acrescentando uma nova injustiça à primeira. Assim, por exemplo, uma mulher “bondosa” e compassiva tolera, por anos a fio, os casos públicos de seu marido que muito a magoam, mas sua filha assume a vingança em nome da mãe. Entretanto, como também ama e protege o pai, vinga-se em seu marido, molestando-o abertamente com um namoro. A transferência no sujeito significa aqui que ela age em lugar de sua mãe. E a transferência no objeto significa que a compensação não se dirige à pessoa do pai, mas ao marido. Embora inocente, este é chamado a pagar por uma injustiça na família de sua mulher. Ao mesmo tempo a filha torna-se semelhante ao pai em seu comportamento, não agindo melhor do que ele.

Certa mulher estava sempre muito irritada com seu marido e, como ela própria notou, sem razão. Na constelação, ficou claro que ela representava uma tia que, como primeira filha de mãe solteira, fora totalmente excluída da família por seu avô. Em substituição a essa tia, a mulher assumiu a raiva pela injustiça mas, poupando o avô, dirigiu-a contra o próprio marido. Ao mesmo tempo, e sem consciência do fato, deu à sua filha mais velha o mesmo nome da tia. A história somente lhe foi revelada por uma conversa telefônica posterior com o próprio pai.

Uma outra mulher, que era bonita mas tinha uma fisionomia muito carregada, era seguidamente abandonada pelos homens. Não dava a impressão de ser agressiva, mas comportava-se como uma vingadora cautelosa, aguardando o momento certo para o golpe. As informações sobre sua família revelaram que sua mãe, aos doze anos de idade, fora estuprada e quase morta. Na constelação a mulher experimentou o medo pânico de sua mãe e, assumindo o papel de sua representante diante do agressor, bradou-lhe no rosto: “Eu mato você!” Foi somente o reconhecimento desse agressor como primeiro homem da mãe, e uma profunda reverência da mãe e da filha diante do destino que uniu a mãe e seu agressor como homem e mulher num evento terrível e sem saída, que trouxe alívio e luz ao semblante da jovem mulher. Então ela pôde entender seus impulsos de vingança diante dos homens, e em que medida nisso ela se ligava à mãe e ao mesmo tempo se tornava semelhante ao agressor.

A fascinação de um parceiro pela morte

Uma dinâmica usual que separa os parceiros resulta do fato de que um deles, de algum modo, está mais perto da morte do que da vida. Essa pessoa não está realmente presente, e toda a luta do outro para retê-lo apenas agrava o conflito. Assim, certa mulher ficou muito tocada quando, numa constelação, pôde ver em que direção olhava o ex-marido do qual acabara de separar-se como sua quinta mulher (ele vivia trocando de mulheres). Na constelação, seu representante não olhava para nenhuma de suas mulheres e namoradas, cujas representantes tinham sido colocadas ali, mas apenas para uma antiga noiva que, pouco antes do casamento, morreu num acidente. Ele queria seguir essa mulher na morte, como se só assim pudesse consumar-se esse grande amor.

Um homem muito bem sucedido e, não obstante, solitário, ficou muito assustado quando se revelou em sua constelação que ele, no meio de todos seus casos, levava consigo esta frase: “Antes te amar do que morrer”.

Sentia-se atraído por sua mãe, que morrera muito cedo, e na constelação só encontrou paz junto dela. É como se tivesse sentido toda a sua vida através dessa atração por sua mãe, e tivesse se defendido dela através desses amores. E talvez também tivesse procurado encontrar neles sua mãe viva, naturalmente não a encontrando.

Nas camadas profundas da alma de homens violentos e mulheres agressivas manifesta-se, às vezes, um grande desespero, o medo de perder o parceiro pela morte e uma luta impotente contra isso. Muitos casamentos fracassaram no pós-guerra porque o homem não conseguia aceitar o fato de ter sobrevivido, em face dos numerosos companheiros mortos com quem diariamente lutara pela sobrevivência. Mesmo voltando para casa, ele desejava, no íntimo, juntar-se aos companheiros mortos. Abala-nos sempre perceber, no decurso de constelações, em quantos conflitos de casal existe, bem no fundo, uma questão de vida e de morte, e quanto de emoção e de entendimento mútuo se libera quando isso vem à luz e, na medida do possível, pode ser resolvido.

Gostaria de mencionar aqui, muito rapidamente, uma dinâmica que se revela cada vez mais, logo que ficamos atentos a ela. Dois parceiros se encontram, em muitos casos, devido à existência de destinos semelhantes em suas famílias de origem. Quando, por exemplo, há um filho presumido na família de um dos parceiros, o mesmo ocorre, com freqüência, na família do outro, muitas vezes com diferença de uma geração. Se numa das famílias os homens têm uma posição desfavorável, isso também acontece freqüentemente na outra família. Se uma das famílias sofre os efeitos de destinos envolvendo criminosos e vítimas, o mesmo ocorre geralmente na outra família. Parece que instintivamente percebemos no parceiro os destinos de sua família, no que têm em comum com os destinos da nossa. São bem diferentes, entretanto, os padrões de lidar com tais destinos. Assim, com freqüência as pessoas se completam pelo lado funesto: por exemplo, um dos parceiros se identifica com as vítimas de um avô no regime nazista, enquanto o outro se envolve com um avô que pertenceu às forças de choque do regime.

Quando ambos os parceiros comparecem a um trabalho para casais, em grupo ou num aconselhamento privado, as conexões que vêm à luz proporcionam muita compreensão recíproca e uma visão do quadro de fundo das dificuldades de relacionamento. Também para o terapeuta é emocionante presenciar quando o auto reconhecimento de um casal envolvido nos destinos familiares se manifesta de uma forma que reforça seu vínculo no amor.

O movimento amoroso interrompido

Uma dinâmica importante nos conflitos de casal se mostra quando há um movimento precocemente interrompido no amor dirigido à mãe. Isto não constitui, em sua origem, um conflito sistêmico, e só se torna tal quando é transferido para a relação conjugal. Uma interrupção no movimento amoroso origina-se na criança pequena quando ela é separada da mãe nos primeiros anos de vida, geralmente por força do destino, por exemplo, porque a mãe teve de ficar hospitalizada por várias semanas depois do nascimento, ou porque a criança de um ano precisou ser internada para uma operação, ou porque a mãe morreu quando a criança tinha três anos. Trata-se portanto de uma separação prematura que sofre a criança, principalmente em relação à sua mãe, às vezes também ao seu pai. O efeito que isso terá sobre a vida posterior da criança, e principalmente sobre os seus relacionamentos, será tanto maior quanto mais existencialmente ameaçada esteve a criança e quanto mais ela teve de abandonar a esperança de recuperar a proximidade da mãe.

Quando um homem ou uma mulher olha para o seu parceiro, sente o desejo de amá-lo e de ser amado por ele. Entretanto, ao se aproximar do parceiro, surge na pessoa, como num reflexo, o antigo medo da criança, de perder sua mãe e de não poder mais confiar nela, junto com uma grande dor e uma profunda resignação. Esse padrão é transferido inconscientemente ao parceiro e uma luz vermelha se acende: “Não quero sofrer isso de novo. Prefiro me retirar logo disso”. Entretanto, como todo mundo gosta de amar e de ser amado, a pessoa volta a tomar um impulso e a procurar o parceiro. Mas, logo que se chega ao amor, emerge novamente o medo da criança pequena e a pessoa torna a recuar. Isto foi descrito por Bert Hellinger como o círculo vicioso da neurose. A maior parte dos chamados conflitos de proximidade e distância têm assim sua origem num movimento precocemente interrompido em direção à mãe. Esses conflitos não podem ser resolvidos na própria relação conjugal, mas exigem que a criança presente no adulto, numa experiência retroativa, seja acolhida com força e amor por sua mãe ou por um terapeuta que a substitua. Isso exige uma experiência de transe ou uma vivência corporal em que o adulto se sinta de novo como uma criança pequena e que, como uma criança pequena, experimente um abraço que lhe permita atravessar a dor e recuperar a confiança em sua mãe.

Quando, na terapia de casal, trazemos assim à luz, de uma forma liberadora, fatos passados, isso ajuda o “amor à segunda vista” (Bert Hellinger), a saber, as dimensões mais profundas de um amor dotado de visão. Representa uma ajuda para o futuro e para um amor bem sucedido do casal (mesmo que, no caso de uma separação, apenas para o tempo em que ainda havia amor). Uma compreensão retroativa só tem sentido na medida em que abre para o casal novos passos para o futuro, no sentido do título de um dos livros de Bert Hellinger: “Vamos em frente”.

A dimensão espiritual da terapia de casal

Quando as constelações na terapia de casal são bem sucedidas, elas abrem para os parceiros um caminho espiritual para o bom êxito de seu relacionamento. O “espiritual” é entendido aqui num sentido mais amplo, como uma espécie de purificação do relacionamento, e como uma forma de inserir-se no espaço maior da alma, que transcende o próprio relacionamento. Também neste particular apontarei brevemente os pontos essenciais.

A fila dos antepassados

A vida nos vem através de nossos pais, mas não se origina neles. Ela vem de longe. Às vezes, podemos colocar os parceiros de frente um para o outro (e isso costuma ser muito útil quando há problemas sexuais) e, atrás de cada um deles, uma fila de antepassados. Isso permite perceber a força da vida que vem de longe e é transmitida através dos antepassados, e também a alegria de viver. Esta conexão, através dos antepassados, com a ampla totalidade da vida é um ato religioso fundamental. Ao realizá-lo nesse espírito, cada um pode sentir, em si mesmo e no parceiro, o que isso proporciona em termos de afluxo de força, de movimento amoroso para o parceiro e de uma união aberta, no sentido de uma vida mais ampla.

O ato de encarar-se

Só conseguimos manter muitos conflitos de relacionamento porque realmente não nos encaramos. Os sentimentos que não podemos manter quando nos olhamos nos olhos não contribuem para o bom êxito do relacionamento. Eles nos mantêm presos a todo tipo de fantasias e de padrões antigos, que nada têm a ver com a relação conjugal. É realmente um exercício espiritual diário desprender-se continuamente desses sentimentos e pensamentos que não conseguimos manter de olhos abertos.

O respeito pelos mais antigos e a primazia do novo

Para o êxito do amor existe um processo indispensável, que tem a ver com o respeito pelos mais antigos e com o progresso. O primeiro passo é este: “Respeito os meus pais e a minha família, e tudo o que vale nessa família”. O segundo passo diz: “Respeito os teus pais e a tua família, e tudo o que vale em tua família”. O terceiro passo costuma ser doloroso. Ambos os parceiros olham para seus pais e lhes dizem interiormente: “Preciso deixar vocês e me desprender também de muita coisa que era importante para vocês. Preciso deixar o que está em oposição ao que traz o meu parceiro em termos de hábitos, normas, valores, fé ou cultura, e o que me impede de dar prioridade à minha união atual e à minha família atual”. E, num quarto passo, os parceiros se encaram e dizem um ao outro: “Vamos fazer algo de novo a partir do antigo que trouxemos, algo que acolha e transcenda o que ambos trouxemos, algo de novo que una e que leve ao futuro, e no qual possamos crescer juntos como pessoas autônomas.”

Da necessidade de partilhar

Muitos conflitos de casal resultam do desejo de que o parceiro satisfaça as nossas necessidades infantis, como se ele tivesse de dar-nos o que deixamos de receber de nossos pais. Isto, porém, sobrecarrega o parceiro, principalmente quando veicula esta mensagem: “Sem você não posso viver!” A solução espiritual reside em ficar em paz com os próprios pais e em dizer ao parceiro: “O que recebi de meus pais basta, e isso eu partilho de boa vontade com você. E o que você traz dos seus pais basta, e eu me alegro se você o repartir comigo. E o que ainda nos falta nós conseguiremos por nossas próprias forças”. Quando este nível adulto de partilhar e de comunicar-se tem força, podemos nos permitir, às vezes, acessos de necessidades infantis, como em situações de estresse e doença. O parceiro estará presente por algum tempo, suportando e dando, até que melhoremos.

Liberdade através do relacionamento

Aqui direi algo de ousado. Às vezes pensamos que, se estivéssemos sós, seríamos mais livres em nosso desenvolvimento e em nossas possibilidades. A realidade é o inverso. A evolução nos ensina que a associação dos parceiros (não a uniformização associada a uma compulsão totalitária) diferencia cada indivíduo, torna-o mais variável em seu pensar e agir do que quando fica confinado à própria individualidade. Quando, com vistas ao parceiro, temos de nos defrontar com coisas novas e procurar novas formas de equilíbrio interno e externo, isto nos libera um pouco dos próprios esforços, que são freqüentemente cegos, em nosso interior. Ganhamos em variedade e equilíbrio, que são pressupostos imprescindíveis para um certo grau de liberdade. Talvez a melhor maneira de descrever a realização espiritual e simultaneamente a realização sistêmica básica na relação do casal seja utilizar, num sentido um pouco mais amplo, as palavras de Bert Hellinger: “Eu amo você e amo aquilo que suporta, dirige e desenvolve a você e a mim”.

 

Jakob Robert Schneider

Colocações Organizacionais

O presente ensaio fala das primeiras experiÊncias colhidas com a transposição do trabalho de colocação de Bert Hellinger  (Weber, 1993; Hellinger, 1994) para sistemas e organizações sociais maiores.

Colocações Organizacionais (clique para download)

Gunthard Weber e Brigitte Gross

Considerações sobre os representantes na constelação familiar

Considerações sobre os representantes na constelação familiar

“Sei que os representantes são muito mais importantes do que havia pensado no começo.  Estão vinculados com um campo mais amplo.  Há outra força que aqui assume a condução: é o movimento da alma.”

Bert Hellinger[i]

Temos muita coisa registrada sobre as constelações familiares, no que se refere ao como se conduzir uma constelação, o papel do constelador e daquele que irá constelar. Mas e quanto aos representantes? Temos poucas alusões sobre esse lugar que aparentemente sugere ser menos importante… mas é justamente através deles que se apresenta aquilo que estava oculto. E é na presença desses representantes que o constelado tem a chance de reencontrar com seus mortos, com seus desafetos, com seus medos, com suas doenças… Diante desses “estranhos” tão familiares é possível dar o primeiro passo em direção à cura. Aquilo o que ainda não foi possível dizer até então, torna-se próximo.  O abraço impossível ganha presença e o olhar tão esperado acontece. Muitas vezes o que se manifesta é justamente a distância que é tão difícil de aceitar, mas que é extremamente sentida e percebida. Confirma, esclarece, o que até então não era possível ver.

Sendo assim, seriam eles apenas “representadores” das emoções dos outros? Se assim for, o quanto eles realmente representam dos outros? Será que os representantes não estariam representando a si mesmos?

Pensando na palavra representação, re-presentar pode significar tornar presente de novo. Talvez fosse até melhor a palavra “apresentação”, porque não é de novo. A constelação não mostra o que já se sabe, ela revela o novo, do mesmo. Ela apresenta para o constelado, ela revela como suas relações afetivas se dão, em laços já conhecidos.  Talvez a palavra original em alemão expresse melhor isso, mas gostaria então de tomar a palavra representante, neste texto, com o significado de “apresentante” para guardar o sentido do novo.

Considero o constelador como aquele que precisa estar com toda a sua sensibilidade de prontidão, pois há que estar atento para os múltiplos movimentos que ocorrem durante a constelação.  Apesar dele estar ali principalmente dirigido ao constelado, não pode perder de vista os representantes.  Como um maestro, o constelador rege todos os “instrumentos” daquela melodia que é ouvida e executada ao mesmo tempo, por todos. Ninguém é platéia passiva numa constelação.  Mesmo os que não estão representando ativamente co-respondem ao campo. Não raro há pessoas que dormem durante uma constelação que está acontecendo ali diante dos olhos, o que revela certamente, o modo de sentir aquele campo que ele também pertence.  Assim, o sono, o tédio, a pressa, o medo, o choro… enfim, os diversos sentimentos que atravessam a “assistência” da constelação, fazem parte também do campo.  Mais do que fazer parte, todos constituem e são constituídos pelo campo.

Assim, há algumas situações que ocorrem numa constelação e que requerem uma boa atenção por parte do constelador, pois ele precisará estender seu olhar para além do constelado. Longe de querer esgotar a riqueza de circunstancias possíveis, seguem comentários como tentativas de compreensão destes fenômenos:

  1. Quando o representante sente e manifesta algo completamente diferente do que foi relatado pelo constelado – o representante pode estar seguindo o que ele acha que tem que manifestar (por conclusão racional) e assim distrai-se da essência do campo, como se ali não estivesse, permanecendo imerso em seus pensamentos.  Outra hipótese é que o constelado imaginou para si algo diferente do real, e nega-se a olhar, concordar com o que se mostra na constelação, que é completamente diferente dos seus desejos.  Abre-se aqui uma boa oportunidade de se trabalhar a presença no representante ou de se trabalhar o enfrentamento do real com o constelado.
  2. Quando o representante não vê nada do que acontece na constelação – aqui revela um estado de entrega, de confiança no constelador e no campo, em que o representante abre mão de controlar e permite que perpasse por si a energia do campo, deixando-se guiar por ela.
  3. Quando o representante faz um movimento repetido em todas as constelações – aqui se revelam dois fenômenos simultâneos: justamente o que ele repete é uma reação que revela muito sobre ele mesmo e se o representante puder olhar com mais atenção para esse movimento repetido, compreenderá algo novo sobre si mesmo; pode também expressar pouca entrega dele ao campo, o que o mantém no recolhimento a um estado já conhecido para ele, mesmo que de modo distraído. Mas jamais é algo que pertence somente ao representante. É como se ele se restringisse a expressar somente aquela determinada força do campo, e as demais se mantivessem retraídas.
  4. Quando o representante tem vontade de fazer diferente do que está sentindo – aqui o representante parece resistir ao campo; pode ser por vergonha de expressar, pode ser porque não considera adequado, etc… De qualquer modo, revela falta de entrega, e o constelador deve convidá-lo a deixar-se levar pelo campo.
  5. Quando o representante não tem vontade de participar – aqui pode ser que o representante já esteja sentindo o campo ao modo da evitação.  Seja por identificação com suas historias pessoais ou não.  Pode ser que participando, ele contribua justamente com essa “não vontade”, que pertence a alguém da constelação propriamente dita.  Mas pode ser que essa resistência a participar esteja revelando muito mais sobre ele do que sobre o constelado. Nesse caso, torna-se visível que ele deve se afastar do campo a fim de que o representante não ultrapasse os seus limites.
  6. Quando o representante passa mal depois que acabou a constelação – aqui a situação mostra que não houve o distanciamento necessário ainda do campo.  O representante precisa de ajuda e de um pouco mais de tempo, para encontrar seu eixo próprio.  Nem todas as pessoas experimentam o tempo de uma constelação da mesma maneira. Há algumas que precisam de repouso imediato ao término da constelação para que possam se sentir bem.  De qualquer modo, esse “ficar preso” pode revelar algo importante de ser trabalhado pelo representante, caso isso seja um acontecimento freqüente.
  7. Quando o participante sente algo antes de começar a constelação ou antes de ser convidado para ser o representante – aqui está claro que uma constelação não se inicia ao mesmo tempo em que ela começa. O campo pode se estabelecer antes do constelado começar a falar, e assim, os representantes ali presentes podem já sentir o movimento.  E se forem perceptivos, sentem-se já tão dentro da constelação que, quando são escolhidos, as sensações já se encontram presentes há um tempo.

Essas são algumas situações que nos ajudam a repensar as perguntas iniciais: o quanto eles realmente representam dos outros? Será que os representantes não estariam representando somente a si mesmos?

Sem complicar as possibilidades de resposta, seria pertinente talvez acrescentar mais uma pergunta: o quê exatamente num campo, constitui-se como sendo o eu e o outro? Considero possível diferenciar, mas jamais separar. Nada acontece comigo sem o outro, e vice-versa. É junto dos tantos outros que eu me constituo como sendo o eu mesmo.  Diria que a gente recolhe, emerge, de inúmeros campos que partilhamos durante toda a nossa vida, o quem eu sou.  Jamais se completa ou termina esse processo de aprontamento de si mesmo.  Portanto, num campo determinado que é o da constelação, não surge um eu que eu nunca fui, nem um eu que sempre fui, de modo absoluto.  A cada historia que participo sendo representante, apresento-me nos outros ao mesmo tempo que aberto aos outros apresento-me a mim. É um processo simultâneo, contínuo, que prescinde da nossa vontade. Simplesmente acontece.

Ana Tereza Camasmie

[i] Hellinger, B.  & Ten Hovel, G.  Un Largo Camino, diálogos sobre el destino, la reconciliación y la felicidad.  Buenos Aires: Alma Lepik Ed., 2006.

Constelação Familiar

Considerada uma terapia familiar contemporânea, a técnica de Constelação familiar foi criada por Bert Hellinger (psicoterapeuta alemão), nos anos 70, chegando ao Brasil em 1999 trazida pelo seu próprio criador. Nela, criamos “esculturas vivas” reconstruindo a árvore genealógica da pessoa, o que permite localizar e remover bloqueios do fluxo amoroso de qualquer geração ou membro da família. Muitas das dificuldades pessoais, assim como problemas de relacionamentos são resultados de confusões nos sistemas familiares. Estas confusões ocorrem quando incorporamos em nossa vida o destino de outra pessoa viva ou que já viveu no passado, de nossa própria família sem estarmos conscientes disto e sem querer. Isto nos faz repetir o destino dos membros familiares que foram excluídos, esquecidos ou não reconhecidos no lugar que pertencia a eles.

Para identificarmos esta dinâmica, precisamos montar a Constelação que acontece num grupo, onde os representantes deste grupo vão ocupar o lugar dos familiares da pessoa a ser Constelada da Constelação Familiar. E ficamos impressionados quando percebemos que os representantes sentem, falam e apresentam sintomas iguais aos membros da família daquela pessoa, embora não o conheçam e sem nenhuma informação prévia. Para este fenômeno não temos ainda uma explicação científica, por isso, o Bert Hellinger prefere chamar a técnica de Fenomenológica. Uma teoria bem aceita e oportuna é a de Ruppert Sheldrake dos “Campos Morfogenéticos”, onde ele enfatiza que o que acontece naquele campo interfere e altera o campo familiar “trabalhado”. Este campo ultrapassa espaço e tempo, portanto vai além desta dimensão tridimensional. Quando trabalhamos nesta dimensão percebemos além do que é visível, vamos além dos sentimentos menores que a relação familiar pode conhecer no limite das relações pessoais. Vamos para um universo mágico e infinito , onde as almas familiares se encontram, testemunhando um amor inigualável, um fluxo amoroso que faz desbloquear sintomas e dificuldades. Ali, diante de nós aparece uma realidade que não estávamos vendo nem percebendo;  e sentimos uma nova possibilidade de vida, pela união entre as almas, pelo amor que une.

Na Constelação familiar podem-se trabalhar problemas de saúde (sintomas físicos), perdas e/ou luto, comportamentos destrutivos, relações com trabalho, dinheiro, dificuldades de relacionamentos (todos os relacionamentos), dependências (todas); enfim, qualquer situação que a pessoa perceba como um limite de vida. Depois de definida a questão a ser trabalhada, é função do terapeuta perceber a dinâmica daquela família (o que está escondido e precisa ser revelado) e ordenar (por em ordem) àquele sistema. As ordens na Constelação são leis ou, princípios básicos pré-estabelecidos, isto é, não sancionados por alguma instância humana, que devem presidir nossos comportamentos, e o desconhecimento ou desrespeito destas ordens podem ocasionar conseqüências graves. Na maioria das vezes , o processo de Constelação conduz a uma nova ordenação do sistema , que indica o lugar mais libertador de cada membro familiar. Uma vez os membros familiares ordenados (respeitados) a reconciliação se manifesta no nível de “almas’, de essência, o que faz surgir na pessoa que foi trabalhada um profundo sentido de respeito, sem julgamento entre bom e mau, onde vítimas e perpetradores se encontram num resgate profundo. Para ajudar na reconciliação utilizamos três rituais que são os mais importantes na Constelação. São eles: “fileira dos Ancestrais”, “reverência” e “deitar-se diante dos mortos”. Estes rituais desempenham um papel importante, pois neles experimentamos funções anímicas que são transmitidas aos membros da família.

 

Fileira dos Ancestrais – colocamos uma fileira de antepassados para serem honrados, a fim de promover o respeito por quem veio antes, pela origem de tudo.

 

Reverência – inclinar-se com respeito a alguém.

 

Deitar-se diante dos mortos – Representando um respeito profundo pela dor de quem já partiu. Ao mesmo tempo se desindentificando com esta dor.

 

Outro procedimento que leva à reconciliação são as frases que ajudam a completar a imagem da “solução”. A ressonância com a alma pode de fato instalar-se por meio da linguagem, mas freqüentemente só vibra com as palavras que atingem e libertam.

 

Para finalizar vou transcrever um trecho do Bert Hellinger em relação ao terapeuta de Constelação familiar que diz: “…a ajuda é uma arte. Como toda arte, envolve uma capacidade que pode ser apreendida e praticada. E envolve empatia em relação ao objeto, a saber, a compreensão do que corresponde a esse objeto e , simultaneamente, daquilo que o eleva, por assim dizer, acima de si mesmo, em algo mais abrangente”.

 

Celma Nunes Villa Verde

Constelações em Homeopatia

Constelações com os Remédios Homeopáticos

 

Pelo Dr. Johannes Latzel

 

Tradução do inglês por Dr. Décio Fábio de Oliveira Júnior (Com permissão expressa do autor)

 

A História das Constelações com os Remédios Homeopáticos

 

O método sistêmico-homeopático chamado de “Constelações com os remédios homeopáticos” ( daqui para a frente referidos neste texto traduzido como “Constelações Homeopáticas”) foi iniciado pelo Prof. Matthias Varga von Kibéd (Diretor de uma Escola de trabalho Sistêmico) e Friedrich Wiest (Terapeuta sistêmico e Naturopata) em Munique.

 

Anos atrás estes dois espíritos pioneiros convidaram vários médicos homeopatas e junto com eles experimentaram constelações para estudar os “campos de informação” dos remédios homeopáticos. Vários grupos de trabalho evoluíram desta combinação entre homeopatia e terapia sistêmica , como por exemplo, em Munique (Friedrich Wiest), Stuttgart (Sybille Chattopadday), e Freiburg (J.Latzel, Beatrix Gessner). Neste ponto eu descreverei minha própria experiência com a abordagem da “homeopatia sistêmica”.

 

Em 1996 eu participei de um dos workshops experimentais mencionados acima. Eu fiquei maravilhado pela forma como a constelação demonstrou tão claramente as características médicas da Carcinosine, em um processo animado como se fosse de um filme. A Carcinosine produziu uma imagem exatamente como é bem conhecido na prática clínica, e experimentamos isto num contexto vivo de uma constelação melhor do que qualquer texto de homeopatia. O método desenvolvido pelos dois facilitadores de Munique pode ser resumido como se segue. Um participante é escolhido para representar a consciência do cliente: ele é o foco do trabalho. Então vários representantes são escolhidos para representar os sintomas-chave do remédio. Com a Carcinosine, p. ex. isto seria desejo de viajar, gosto pela dança, história familiar de doenças graves, agressão reprimida, desejo de comer chocolate, etc. A constelação é colocada e então o facilitador muda a disposição até que todos os representantes se sintam tão bem quanto possível. Este método revela a imagem da doença mais o processo de cura específico que o acompanha como foi conhecido da prática homeopática – assim em movimentos acelerados ( N.T. Fast Motion = movimento acelerado como aquele que é visto quando aceleramos um filme , p.ex. como nos filmes do cinema mudo antigo) e concentrado nos pontos essenciais.

 

Inspirado por este workshop em Munique eu me juntei a minha colega homeopata Dra. Beatrix Gessner (Konstanz, Alemanha) para organizar um trabalho médico em grupo, e nós começamos a experimentar com constelações homeopáticas em bases regulares.

 

Os resultados destes grupos nos surpreenderam:

 

Como regra, as constelações dos remédios mostraram aspectos essenciais das características do remédio. Algo como a “essência” , o tema principal, o significado profundo da doença tornou-se visível.

 

Começando a partir do quadro clínico e sem uma intervenção aparente de fora, a constelação desenvolveu um caminho de cura específico para o remédio. Os sintomas da doença foram quase sempre transformados em recursos e qualidades e assim mostraram um processo dinâmico de cura específico e característico deste remédio.

 

Os efeitos das constelações nos participantes foram ampliadores da percepção, inspiradores, benéficos e algumas vezes claramente curadores. Nós freqüentemente sentimos , com uma clareza tangível, a presença de um “campo de cura” , que nos fortaleceu no nível da alma, e nos ajudou em nossos processos de crescimento pessoais.

 

 

 

Nós notamos que o poder das constelações foi freqüentemente enfraquecido quando nós ativamente queríamos alcançar uma resolução ou uma cura. Comparável ao tratamento homeopático, a constelação parecia produzir seu efeito mais forte quando o facilitador evitou interferir tanto quanto possível. E isto parece um paradoxo: o efeito da constelação foi claramente mais forte quando o facilitador se refreou de fazer mudanças específicas e focou nas atividades de perguntar e observar, muito parecido com o procedimento da anamnese homeopática ( tomada da compreensão).

 

Foi notável que, mesmo percebendo que nós nos concentramos em um único remédio por reunião em nosso grupo, o efeito benéfico foi usualmente sentido por todos os participantes. Na homeopatia clássica o médico procura um remédio específico para a situação também específica do paciente. Ao invés de focar no problema específico de um indivíduo, em nosso experimento focamos no remédio, apesar disto o campo de cura do respectivo remédio pareceu alcançar cada participante. Ele mostrou-se em seu essencial padrão interior, um padrão arquetípico próprio que foi de certo modo familiar para cada um dos participantes.

 

 

 

Com o remédio Sulphur, p. ex. , nós vimos uma vívida demonstração da tendência a simplesmente excluir tudo o que incomoda, e fingir que tudo está bem. Com Tuia, nós testemunhamos uma fixação quase fanática em um ponto específico e uma perspectiva também específica. Com Medorrinum, nós experimentamos a dificuldade de se entregar. Com Sépia, nós vimos a luta da mulher contra as regras do homem. Dentro das constelações os fatores característicos dos remédios apareceram em um estilo perfeitamente claro. Um filme criado especialmente para ilustrar as características do remédio não poderiam ter mostrado isto melhor.

 

Isto nos fez ponderar em que extensão estes efeitos dependiam do nível de conhecimento dos participantes acerca da matéria. Contudo, experimentos conduzidos com grupos de participantes não treinados em homeopatia produziram os mesmos efeitos característicos dos remédios com clareza igual ou mesmo maior. Nós podemos confiar na presença do campo de informação e de cura dos remédios nas constelações. Isto nos impressionou muito profundamente, e nós decidimos continuar com nossos experimentos.

 

Um tremendamente excitante pensamento surgiu: Se um remédio pode se tornar presente como um campo tão logo saibamos seu nome e sejamos capazes de colocar vários de seus sintomas-chave, da mesma forma poderia o campo específico de informação e cura de um remédio específico apropriado a um participante tornar-se presente em uma constelação ? Poderíamos nós colocarmos uma constelação específica para o remédio homeopático de um cliente, mesmo se nós não soubéssemos seu nome ? Seria suficiente apenas colocar os vários sintomas que são essenciais ao caso – como com as constelações dos remédios conhecidos – mais a variável “ o remédio homeopático do cliente X” ? E se, por meio da colocação da constelação, for ao contrário possível permitir que o campo informacional e curativo de um remédio se torne presente para um cliente? Como facilitar isto da melhor forma? Quais são as possibilidades, quais são os riscos ? Que tipo de benefícios podemos esperar e onde nós devemos esperar encontrar os limites da aplicação deste método ? Como pode o trabalho com os campos informacionais e curativos dos remédios homeopáticos ser usado para o benefício das pessoas que sofrem ?

 

Nossas experiências mostraram que as constelações homeopáticas se provaram especialmente benéficas se o facilitador assume uma postura “fenomenológica”, sem qualquer intenção, e não aspira resolução ou cura. Nós temos assim, chamado de constelações homeopáticas um método de aumentar a auto-descoberta e o próprio crescimento pessoal , e não chamamos isto de terapia.

 

Mas porque , precisamente, esta postura não-intencional do facilitador provou ser tão claramente benéfica para tantos participantes? Em que medida pode uma jornada de auto-descoberta que não é terapeuticamente orientada ser curativa? Existe alguma coisa como um campo de inteligência inerente aos remédios e na homeopatia em geral que, uma vez presente no recinto , estimule processos de cura em cada membro do grupo? Muitas questões mais advém destes experimentos, por exemplo:

 

– Qual é o modo de ação dos remédios homeopáticos? Será que eles funcionam através de campos morfogenéticos?

 

 

 

– Serão as formulações dos remédios uma conexão intermediária com estes campos morfogenéticos?

 

 

 

– Será que um dia dispensaremos remédios que não serão administrados na forma de substâncias, mas que revelarão seu efeito na forma de trabalho puramente mental, por meio de uma constelação?

 

Até então eu estava qualificado como clínico geral e homeopata. Para explorar estas questões eu decidi, junto com minha esposa Suzanne Latzel, completar o treinamento em terapia sistêmcia e constelações familiares com Sneh Victoria Schnabel. Nós então fundamos um instituto para treinamento e pesquisa em Freiburg: das Institut für Systemische Homöopathie.

 

O Instituto tem sido um local onde o método das constelações homeopáticas tem sido aplicado de múltiplos modos. Embora o método esteja ainda no estágio experimental, e muitas perguntas ainda esperem uma resposta, os seminários sucessivos tem sido sempre um grande sucesso, com muitas experiências divertidas e muito curativas para todos. Eu desejo acrescentar aqui os colegas que tem também experimentado a combinação do trabalho sistêmico e da homeopatia: o já mencionado antes naturopata e terapeuta sistêmico Friedrich Wiest em Munique, os médicos homeopatas Hans Baitinger em Nuremberg, Sibylle Chattopaddhay em Stuttgard e Andreas Krüger , naturopata e diretor da escola Samuel-Hahnemann em Berlim.

 

 

 

Os elementos essenciais do trabalho do Instituto podem ser resumidos como se segue:

 

A aplicação das constelações homeopáticas como é implementada no nosso instituto (ISH Freiburg) :

 

– Como parte integral das reuniões do nosso círculo de médicos homeopatas, em intervalos assíduos e regulares.

 

– Como parte integral de nossos workshops em educação continuada.

 

– Como workshops de desenvolvimento pessoal em finais de semana.

 

– Como elemento de grupos que estão se desenvolvendo e treinando em trabalho sistêmico.

 

 

 

Definição:

 

As constelações homeopáticas são um método para promover crescimento pessoal e auto-conhecimento. Elas ativam e reforçam a capacidade do corpo par aa auto-cura.

 

As constelações homeopáticas não são terapia no sentido clássico do termo e não objetivam substituí-la. Elas podem entretanto suplementar tais terapias e melhorar as condições sobre as quais tais terapias podem se tornar mais efetivas. Elas são úteis como um elemento de educação continuada em homeopatia e outros campos relacionados.

 

Modo de ação das constelações homeopáticas

 

De acordo com o princípio básico da homeopatia, o similar cura o similar, a alma busca encontrar na doença e no sofrimento algo que seja similar à causa de seu sofrimento.

 

A alma está olhando para uma imagem de similaridade – algo que reflete sua situação patológica e problemática como foi – de modo a se conhecer melhor. Pelo reconhecimento de si nesta imagem os poderes inerentes de auto-cura da alma são ativados. Dentro da tradição da homeopatia clássica, tal imagem é transmitida à alma pelos remédios homeopáticos.

 

As constelações homeopáticas mostram que é possível receber tais imagens em situações de grupo. O pré-requisito para isto é a existência de campos informacionais. Nas constelações homeopáticas nós usamos o poder do grupo para penetrar em tais campos de informação. Através do convite ‘a consciência dentro do contexto da doença estes campos podem se tornar efetivos. A constelação trabalha com o campo informacional e de cura da homeopatia ou de um remédio específico. ( veja Rupert Sheldrake, The Presence of the Past, para informações sobre a teoria dos campos morfogenéticos).

 

Os remédios homeopáticos revelam seus efeitos de uma forma muito específica; eles são desenhados para o indivíduo. Em um tratamento dentro da homeopatia clássica é deste modo necessário conduzir uma anamnese ampla e abrangente. Ao mesmo tempo, contudo, os campos informacionais e de cura tem um efeito coletivo. Cada alma humana ressonará em uma certa extensão com cada remédio homeopático, ou encontrará nele um aspecto correspondente. Em uma constelação, os campos informacionais e curadores podem alcançar, tocar e influenciar cada participante individual do grupo, tanto quanto ele ou ela esteja aberto a isto. Neste contexto o campo funciona menos como terapia para doenças e mais como algo que fortalece a alma e o corpo.

 

 

 

Formas de constelações homeopáticas

 

As constelações homeopáticas podem ser gerais ou pessoais. Elas ou se referem a um contexto geral de um remédio homeopático bem conhecido ou a um contexto pessoal de um remédio especificamente indicado para um indivíduo participante de um grupo. O nome do remédio requerido pelo participante nem precisa ser conhecido.

 

Grupo-Alvo

 

As constelações homeopáticas são indicadas para pessoas que estejam desejosas de tomar responsabilidade por si mesmas, que estejam abertas a novas experiências e que querem promover seu próprio processo de cura assim como o de outra pessoas. As constelações homeopáticas podem ainda ser usadas como elemento de treinamento nas carreiras médica, social ou de ensino.

 

Usos das constelações homeopáticas

 

As constelações homeopáticas são um caminho para aumentar o auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal, e deste modo não são orientadas para um efeito curativo direto. Elas podem contudo fortalecer as forças de auto-cura e apoiar os processos de cura. Elas nos ensinam a ser mais presentes, ter mais percepção, nos comunicar melhor e ser mais precisos em nossa linguagem. Elas ainda nos treinam em nossa intuição, criatividade e espontaneidade. Para pessoas interessadas em homeopatia e que aplicam a homeopatia terapeuticamente, as constelações fornecem uma excelente forma de aprender acerca dos princípios da homeopatia e sobre os remédios individuais através de uma experiência direta.

 

Pré-requisitos para o facilitador de constelações homeopáticas

 

Para se qualificar a facilitar constelações homeopáticas você precisa ter considerável conhecimento e experiência com trabalho terapêutico. E, ao mesmo tempo, uma vez que comece com a constelação, você precisa esquecer todos os conceitos terapêuticos. Você deveria ter um conhecimento considerável de homeopatia e do princípio que o similar cura o similar. Tanto constelações gerais como pessoais em homeopatia requerem que você domine com maestria a arte de encontrar alguns sintomas ou problemas característicos. Uma parte crucial das constelações homeopáticas é encontrar aquilo que é essencial.

 

Peculiaridades das constelações homeopáticas

 

– As constelações homeopáticas não se referem primariamente ao passado ou ao futuro. Elas funcionam com o poder do momento. Elas não tem um propósito específico ou uma forma claramente definida. Elas não tem um objetivo ou meta

 

– Elas levam a um profundo entendimento dos princípios básicos da cura homeopática

 

– Elas não são complicadas. Elas são simples.

 

– Elas desenvolvem-se com uma cooperação de todos os participantes do grupo e dá espaço a aquilo que se desenvolve dentro deste espírito de comunhão e sem qualquer intervenção direta.

 

– Elas não objetivam uma solução rápida e não se espera que o terapeuta forneça uma solução. Ele honra o caminho que surge em pequenos passos e confia nos poderes de cura inerentes da alma.

 

– Elas não devem ser interpretadas como universalmente válidas. Ao contrário, elas permitem diferentes interpretações dos participantes e estas diferenças devem ser respeitadas.

 

– Elas buscam por uma qualidade oculta na dificuldade, por um poder de cura qeu funciona através da doença por uma nova força que advém da fraqueza.

 

– Elas são um meio sério de trabalhar em busca da cura e do auto-desenvolvimento. E ao mesmo tempo são divertidas e leves, e despertam a alegria interior.

Constelações em Pacientes Psicóticos

1. Sobre a teoria e a técnica do trabalho sistêmico com constelações

O trabalho com constelações familiares é um procedimento psicoterapêutico relativamente recente e controvertido. Ainda menos numerosas são até agora as experiências realizadas através dessa abordagem com pessoas que exibem comportamento psicótico. Tais experiências, contudo, são animadoras a ponto de justificar nosso relato a seu respeito. Dispensamos-nos aqui de apresentar os principios que fundamentam esse trabalho, (“ordens do amor”, consciência pessoal e consciência do grupo familiar, etc).[1] Apresentamos apenas uma breve introdução, dedicando maior atenção aos aspectos que nesse trabalho com pacientes com diagnósticos de psicose nos aparecem como especialmente importantes.

1.1. O desenvolvimento do trabalho com constelações familiares

A técnica das constelações familiares foi desenvolvida em seus elementos básicos por Bert Hellinger, sobretudo nos anos 80 [2]. Desenvolveu-se e expandiu-se rapidamente no espaço cultural de lingua alemã e, nos últimos anos, também em escala internacional. Tem suas raízes na abordagem da terapia familiar através de várias gerações [3]. Abordagens da terapia familiar orientadas para o crescimento já utilizavam há mais tempo representações espaciais para entender constelações de relacionamentos e para estimular modificações.[4] Depois que Bert Hellinger entrou em contato com representantes da terapia familiar, nos Estados Unidos, e com o trabalho de escultura familiar, na Alemanha, ele começou a condensar insights sobre a dinâmica familiar, – sobretudo os que tinham caráter estrutural e envolviam várias ge rações -, com procedimentos da análise transacional [5], numa terapia breve de grupo, sob a condução de um diretor. Essa terapia ele denominou “Familien-Stellen” (método de “colocar” ou de “constelar” famílias). Esse trabalho era complementado, nas assim chamadas “rodadas”, por intervenções hipnoterapêuticas ou outras, de que se valia Hellinger, através do humor, da confrontação ou da narração de histórias para quebrar padrões rotineiros de pensamento e estimular novas alternativas de ação. Infelizmente, essa técnica de rodadas, onde os participantes relatavam, cada um por seu turno, seus sentimentos e suas questões, teve de ser abandonada quando Bert Hellinger passou a trabalhar com grupos muito numerosos.[6]

1.2. Comprensão do sistema e dos sintomas

Numa constelação são levados em conta todos os membros de um sistema familiar no âmbito de três gerações, de maneira a incluir os vivos e os mortos. Todos os membros da família tomam parte numa ordem básica[7] à qual estão permanentemente vinculados. Essa ordem básica inclui, por exemplo, o direito de todos a pertencer ao sistema e a precedência dos que vêm antes sobre os que vêm depois. As famílias onde os sintomas aparecem estão frequentemente em “desordem” no que toca a essas leis.

Os sintomas que estejam condicionados por implicações sistêmicas sistêmicas manifestam a existência de um profundo amor resultante do vínculo, uma ligação inconsciente do indivíduo com seu grupo de origem. Isto faz com que alguns repitam os destinos de outros e queiram, em lugar deles, assumir algo de pesado, expiar ou até mesmo morrer. Tal necessidade de compensar se radica num pensamento mágico de caráter infantil, já que tal atitude não tem o poder de redimir essas pessoas nem de aliviar ou de anular seus destinos. Outra base para o desenvolvimento de problemas é a perda de conexão com as fontes dos laços familiares. Isto acontece, por exemplo, quando membros da família não são respeitados ou são esquecidos. Além da implicação sistêmica, devem ser ainda considerados, na geração de dificuldades psíquicas, os aspectos associados à evolução pessoal, por exemplo, a interrupção do movimento precoce da criança, dirigido geralmente para a mãe. No presente trabalho focalizamos preferencialmente as dinâmicas sistêmicas, dando menos espaço ao significado da história individual da vida e do processo da aprendizagem.

1.3. O processo da constelação

Em nossos seminários, que duram de dois dias e meio a quatro dias, trabalhamos com grupos de 12 a 14 participantes e com um máximo de 10 observadores participantes. Na constelação familiar cada participante do grupo monta espacialmente sua imagem interna de um dos seus sistemas (o de sua família de origem ou da atual, ou ainda de suas relações de trabalho), com a ajuda de representantes, escolhidos entre os integrantes do grupo. Esses representantes geralmente possuem pouquíssimas informações prévias sobre as circunstâncias da vida e da história das pessoas representadas. O terapeuta interroga os representantes sobre suas sensações e sentimentos nos lugares que ocupam. As percepções dos representantes fornecem indicações importantes sobre as dinâmicas familiares e as conexões sistêmicas, pois é incrível como refletem exatamente, muitas vezes, as pessoas representadas, que não são conhecidas pelos representantes. O dirigente do grupo tenta a seguir mudanças de posição para os interessados, buscando, na medida do possível, o „melhor“ lugar para cada um do sistema. Quando se consegue isto, o terapeuta geralmente introduz o próprio cliente em seu lugar (até então ocupado por seu representante). Em conexão com determinadas frases[8] que diz às pessoas importantes de suas relações, ele muitas vezes experimenta de novo uma dor antiga e emoções que aliviam, e ganha novas perspectivas. A “imagem da solução”, quando ele a consegue acolher e interiorizar, desenvolve nele frequentemente efeitos que perduram por longo tempo.

1.4. A inserção da constelação familiar no processo terapêutico

 

Evolução progressiva ou experiência de iluminação?A forte expansão do trabalho com constelações tem despertado junto ao público, de um lado, expectativas fora da realidade e, de outro, críticas de simplificação sem seriedade. De acordo com nossas experiências, o trabalho da constelação familiar, justamente com pacientes que exibem comportamento psicótico, só se recomenda no contexto de uma relação terapêutica e com uma acurada preparação. Os pacientes se inscrevem para os seminários de forma autônoma e sob a própria responsabilidade, mas geralmente são advertidos dessa possibilidade por seus terapeutas, que frequentemente também os acompanham nos seminários. Não devem apresentar sintomas psicóticos agudos. Muitos pacientes comparecem inicialmente a seminários, uma vez ou várias, como observadores participantes, não fazendo incialmente suas próprias constelações mas presenciando as de outros ou delas participando como representantes. Os terapeutas que lhes recomendam o trabalho ou os acompanham nele deveriam conhecer o trabalho com as constelações e suas premissas, e o terapeuta que conduz a constelação deveria ter experiência com pacientes desses grupos de diagnóstico. Em seguimento a uma constelação familiar podem eventualmente surgir no paciente reações depreciadoras ou agressivas e até mesmo episódios psicóticos. Tais reações, que inicialmente interpretávamos como sinal de insucesso, hoje encaramos como medidas distanciadoras, que visam restabelecer a autonomia do paciente para poder lidar com o intenso desejo de estar próximo e de ser olhado, que se reavivou nesses seminários e foi satisfeito apenas por um curto período de tempo. Ultimamente, justamente em seguida a tais “pioras”, temos recebido com frequencia excelentes retornos de terapeutas relatando desenvolvimentos positivos depois de constelações familiares.

 

 

2. Elementos terapêuticos do trabalho com constelações familiares

 

2.1. Esclarecimento da solicitação

Um fator importante do seminário de constelações é o esclarecimento do que se deseja do terapeuta. Quanto mais concretamente forem formuladas as questões e os objetivos, tanto melhor se poderá decidir qual corte do sistema deverá ser representado ou levado em consideração. A ampla dispensa de uma anamnese detalhada e o enfoque dirigido para soluções e recursos choca-se, às vezes com resistências, justamente por parte de pacientes com longa história de tratamento, como se estes tivessem de “defender” seu status de doentes e justificar seus problemas. Contudo, se os pacientes com diagnósticos de psicose recebem nos seminários o mesmo tratamento como todos os demais, eles logo mostram, muitas vezes, incríveis habilidades sociais e geralmente se integram em problemas ao grupo.

2.2. A representação

O que se exige dos representantes nas constelações é que se desprendam em larga medida de suas histórias pessoais, que percebam “sem intenções” e comuniquem as reações corporais, sentimentos ou sensações que emergem nos lugares que ocupam como representantes. Esta exigência de deixar “de fora” a própria história e as hipóteses de uma psicologia corriqueira (por exemplo, „Aquela pessoa está longe de mim – com ela não devo ter muito a ver), e de se entregar sem reservas ao que se sente, oferece a cada participante um exercício de percepção que no decurso do seminário vai sendo cada vez melhor dominado. Tem-nos surpreendido, repetidas vezes, a maneira diferenciada e sensível que exibem, como representantes, pacientes que antes apresentavam um comportamento psicótico. Alguns ainda precisam de uma ajuda inicial, tanto para entrarem num papel quanto para se “despedirem” dele, mas muitos vão apreciando cada vez mais a possibilidade de vivenciar papéis e lugares totalmente diferentes nas famílias. Numa constelação é possível perceber onde esses pacientes frequentemente encontram problemas: em viver relações intensas e em seguida voltar a si mesmos (quando, depois de uma constelação, abandonam os papéis que representavam).

2.3. A vivência da imagem

Através do método de posicionar membros da família, com a ajuda de representantes, manifesta-se um aspecto vivencial que, à exceção do trabalho com esculturas familiares, raramente aparece em outras abordagens terapêuticas: a experiência subjetiva direta, realizada simultaneamente em muitos canais sensórios, envolvendo o lado fisiológico, o expressivo-motor, o emocional e então também o cognitivo. Através dessa experiência direta que envolve o corpo e os sentidos, as imagens consteladas têm muitas vezes fortes efeitos emocionais e com isto podem ser revividas e trabalhadas. O que se procura, em termos de imagem sensível, é um lugar melhor para o protagonista. As mudanças nas sensações corporais e nas emoções dos representantes e do próprio cliente servem de instrumentos para validar a solução. Na imagem da solução ganham um lugar informações e pessoas até então excluídas. Quando o processo da constelação, com a imagem da solução, é significativo para o cliente, ele ativa novas formas de ver e de proceder em constelações familiares até então experimentadas como problemáticas. Como num rito de passagem, os passos individuais (as imagens intermediárias) são condensados numa experiência que se pode apreender e compreender.[9]

3. Experiências já resultantes do trabalho de constelações com pessoas com diagnóstico de psicose

Em contraposição às teorias e procedimentos de abordagens terapêuticas estabelecidas, exaustivamente formuladas e diferenciadas através de decênios, o trabalho com constelações, especialmente com pacientes de psicoses, só apresenta algumas experiências iniciais.[10] Essas experiências indicam que determinados padrões de relacionamento e determinadas dinâmicas sistêmicas aparecem mais frequentemente em sistemas com pacientes de psicose do que em outros sistemas. Isto não implica em afirmar que esses padrões estejam condicionando o aparecimento de psicoses. Entretanto, podemos verificar que processo de trazê-los à luz e resolvê-los através das constelações frequentemente influencia positivamente e de forma duradoura o comportamento dos envolvidos.

Descrevemos a seguir algumas dessas características e dinâmicas de relacionamento em pacientes com diagnoses de formas esquizofrênicas, inclusive alguns exemplos de casos.

3.1. Fragilidade na diferenciação entre o „eu“ e os „outros“.

Nestas constelações, com mais frequência e de modo mais drástico do que em outras, os representantes expressam percepções que, num sentido mais amplo, se relacionam ao tema da „diferenciação entre si mesmo e outras pessoas no sistema“. Os representantes se confundem com outros, sentem-se enredados e ligados como se fossem siameses e carecem de um espaço próprio perceptível; ou então se sentem colocados inteiramente diante do sistema ou para fora dele. Exprimem-se com marcada ambivalência, oscilam entre sentimentos de estarem fundidos, amarrados e obrigados, desejando ter autonomia e espaço livre, ou então se apresentam desorientados, desesperados ou mudos. Estas manifestações de participantes „ingênuos“ do curso em posições de representantes correspondem às descrições da dinâmica psíquica nas abordagens da terapia individual.[11] Nas constelações pode-se mostrar com frequencia que esses estados psíquicos perturbadores, opacos e quase insuportavelmente contraditórios possuem o seu equivalente em acontecimentos e processos relacionais obscuros, traumáticos e cercados de segredos do sistema familiar, em que os interessados estão implicados de forma muitas vezes inconsciente. Trata-se aí de dinâmicas que atuam através de gerações. Nas constelações, o comportamento psicótico se manifesta como um esforço ativo para dominar inconciliáveis tensões e oposições, de caráter interpessoal e intrapsíquico.

3.2. Ligação profunda e identificação

Denominamos „identificada“ uma pessoa que, de modo inconsciente, está implicada com aspectos de um ou de vários membros da família e tenta imitar ou superar aspectos da vida dele(s). Segundo nossa experiência, tais identificações surgem principalmente quando membros do sistema tiveram um destino especial, ou quando não são respeitados ou foram excluídos. Membros que se seguem no sistema familiar caem então em contextos de relacionamento em que muitas vezes, de forma inconsciente, repetem aspectos do destino dessa(s) pessoa(s) ou sentem a necessidade de resolver algo em seu lugar. Em famílias com formações sintomáticas esquizofrênicas, encontramos frequentemene formas especiais de identificação que descrevemos a seguir.

3.2.1. Identificação transsexual

Exemplo 1:

A mais velha de duas filhas desenvolvera um comportamento psicótico ao terminar seus estudos superiores. Apaixonara-se por um de seus professores, mas também não estava certa de que ela própria não fosse um homem, e durante semanas apresentou-se em suas aulas com trajes masculinos. Jamais conseguira trabalhar em sua profissão. Na constelação, sua representante se postou ao lado da mãe e o pai afirmou que não tinha nada a ver com aquilo. Através de perguntas apurou-se que a mãe tivera um noivo e que o casamento fora impedido pelas injunções da guerra. Durante toda a sua vida, ela rejeitara seu marido, desvalorizando-o em presença das filhas e também idealizando o noivo por sua melhor instrução. A cliente tinha cursara a mesma disciplina do antigo noivo da mãe e, como ela própria dizia, tomara o lugar dele junto da mãe.

Ela se sentiu liberada quando o noivo foi introduzido na constelação e quando ela disse, tanto a ele quanto à sua mãe, que nada tinha a ver com ele e que só queria viver a própria vida e aceitar-se plenamente como mulher. Em seguida colocou-se junto do pai e disse-lhe que ele era o responsável pela mãe.

Exemplo 2:

Um paciente, que vinha sendo diagnosticado como doente psíquico crônico e que fora criado num círculo de muitas mulheres, após um seminário assumiu-se abertamente como homossexual. A partir daí passou a mostrar sintomas bem mais raramente, completou com acompanhamento terapêutico uma exigente formação e há dois anos exerce sua profissão.

3.2.2. Identificações duplas

Particularmente pesada é a identificação simultânea com dois excluídos. Uma forma especial dela é a identificação simultanea com vítima(s) e autor(es).

Um exemplo:

Uma participante de um seminário, de cerca de 50 anos, com uma carreira psiquiátrica de muitos anos, tinha um pai de mãe solteira, que entrou na policia especial nazista e mais tarde foi vigia num campo de concentração. Através de perguntas, apurou-se durante a constelação que o pai dele era judeu e que nada se sabia sobre seu destino. Com isto a paciente passou a compreender melhor seus sintomas, que já duravam anos, de ser simultaneamente simultaneamente perseguida e perseguidora.[12] Essa dinâmica foi por nós encontrada diversas vezes, por exemplo, nos chamados doentes mentais transgressores. Seja frisado, neste contexto, que com muita frequência tomamos à letra conteúdos de manias, que se revelam carregados de sentido. Se alguém se sente perseguido ou envenenado, perguntamos: quem na família foi perseguido ou envenenado? Ou, se alguém sente compulsão de lavar-se, perguntamos: quem na família precisava lavar-se? Não dispomos aqui do espaço necessário para entrar mais fundo nesta matéria.

3.3. Segredos e tabus

Em constelações de pacientes de psicoses pudemos verificar repetidas vezes que provocavam perturbação nesses pacientes relacionamentos confusos e mal definidos, como paternidade obscura, adoções mantidas em segredo, ocultação de um irmão gêmeo que morreu no parto ou durante a gravidez,[13] causas de morte obscuras ou ocultadas (por exemplo, um suicídio apresentado como um acidente). Devido a sentimentos de lealdade, os pacientes frequentemente não se atrevem a comunicar as incertezas que experimentam, fazer perguntas sobre elas ou investigá-las.

3.4. Sequelas de culpa e de violência na família

Em famílias onde há psicoses parece também haver um número bem maior de segredos de família e de tabus relacionados com atos de violência, crimes e injustiças de que participaram, como autores ou como vítimas, membros da famía (geralmente de gerações precedentes). A culpa cometida ou experimentada geralmente não era encarada nem exteriorizada.

Ilustro com um exemplo de um seminário de constelações familiares:

Um homem de 33 anos, após uma grave tentativa de suicídio, procurou-me para uma terapia. Contou que nos últimos meses, quando estava se separando de sua namorada, retraiu-se de todo contato social e desenvolveu fantasias de perseguido e de perseguidor. Finalmente abriu a própria veia jugular e só foi salvo devido a circunstâncias felizes. Na época do início da terapia não mostrava sintomas psicóticos agudos, mas todos os sinais de uma grave crise de identidade e de autovalorização. Estava fortemente deprimido e padecia de sentimentos massivos de culpa, insuficiência e fracasso.Experimentava uma forte diminuição de seus impulsos e um retardamento motor, falava por monossílabos e estava grandemente limitado em sua expressão.Durante um ano de acompanhamento psicoterapêutico aconteceram vários episódios de crise e conversas em família com o pai e o irmão mais novo, que sempre exprimiam medo de uma recaída e pela vida dele. Ele se estabilizou, mas voltou a viver com os pais e cortou quase todo contato com o mundo exterior. Ele mesmo se queixava de falta de acesso emocional a si mesmo e à tentativa de suicídio, experimentava-se como se estivesse cortado de alguma coisa e não „sentisse“ mais a si mesmo.

Sua participação num seminário de constelações familiares tinha o objetivo principal de retomar contato com outros (interessados). No decurso do seminário ele constelou sua família de origem (os pais, ele próprio e um irmão mais novo). Os representantes de todos eles disseram que tinham pouco contato com os próprios sentimentos. Como o representante do pai, na constelação da família, se virou e olhava para fora, interrogamos o cliente sobre destinos ou acontecimentos especiais em sua família de origem. Apuramos que dois de seus irmãos tombaram na guerra e que seu avô voltara para casa ferido por um tiro na barriga. Fizemos com que o cliente incluísse na constelação os dois tios e o avô. Ele reverenciou cada um deles. Os representantes dos tios se sentiram olhados e honrados em seu destino, mas o representante do avô disse que não se devia reverenciá-lo pois cometera algo muito grave. Paralelamente já se tinham modificado antes os sentimentos dos demais representantes da família, de forma incomum e dramática. Todos eles se afastaram do representante do avô e mostravam um forte medo. Respondendo às perguntas, o cliente só pôde informar que o avô tinha sido um participante entusiasta da guerra. Experimentalmente foram então introduzidos representantes de vítimas da guerra, que se deitaram no chão. Sua presença provocou no representante do cliente uma veemente compaixão, enquanto o representante do avô permaneceu frio e distante. O representante do cliente se inclinou diante das vítimas, despediu-se também do avô, que fora colocado à parte da família, e deixou com ele a culpa. Em seguida foi colocado ao lado do pai.

Depois da constelação o cliente contou que da herança do pai ele tinha pedido para si a mochila de guerra (na ocasião, tinha sete anos). Essa mochila continha, entre outros objetos de uso, o livro de Hitler „Mein Kampf“ (Minha Luta) e uma velha pistola. Foi com essa arma que ele tentou suicidar-se e só recorreu à faca quando a pistola falhou. Foi profundamente tocante, para o cliente, sua vivência num grupo onde nem ele nem seu avô foram moralmente julgados, e no qual ele, de forma comovente, se dirigiu a seu pai e seu pai a ele. Por desejo próprio, ele terminou a terapia, depois umas cinco sessões adicionais, separadas por intervalos mais longos.

Dois anos depois, apareceu no consultório do terapeuta com um ramo de flores nas mãos. Relatou que tinha prestado com êxito seus exames finais como engenheiro, assumido um emprego e iniciado uma nova relação. Sentia que tinha „aterrissado bem na vida“. Disse que o seminário da constelação tinha sido a coisa mais difícil que conseguira na vida, e que fora incrivelmente importante para ele.

3.5. Outros dilemas que pesam

Certas situações se tornam também insustentáveis para tais pacientes quando, além das implicações sistêmicas, se defrontam com vários dilemas de relacionamento. Podem estar colocados, por exemplo, entre duas pessoas relacionadas que estejam em conflito total entre si (por exemplo, seus pais ou a mãe e uma avó que também more em casa). Pode ser ainda que alguém tenha colocado para eles expectativas comportamento totalmente contraditórias e inconciliáveis, ou que várias pessoas ao mesmo tempo lhes tenham colocado expectativas diferentes e estressantes.[14]

Isto aconteceu, por exemplo, com uma paciente simultanemente identificada com agressora e vítima. Na constelação ela ficou em posição transversa entre a representante da mãe e a da avó paterna, que se odiavam mutuamente. Tais triangulações adicionais marcantes dessas crianças foram frequentemente encontradas por nós nas constelações. Suas soluções proporcionaram claros alívios adicionais. Quando os pais provinham de países diferentes ou pertenciam a diferentes comunidades religiosas, isto trazia aos filhos novos dilemas.

4. Conclusão

Requer-se uma grande experiência terapêutica para se lidar cuidadosamente com as “informações” reveladas nas constelações, tomando-as, sim, a sério, não porém excessivamente à letra. Talvez mais do que em outros métodos, existe aqui, conforme a formação e a mentalidade do praticante, o perigo da simplificação, de uma abreviação sem seriedade e da manipulação. Além disto, cada família tem o direito de manter seus segredos. Pode ser útil que, depois de uma constelação, familiares acrescentem às percepções, até então tomadas como “loucas”, informações que esclareçam os acontecimentos já registrados. Quando, porém, aquilo que emerge nas constelações passa a ser considerado como a única verdade válida, a confusão e as manias apenas ficam piores. Em nossa apreciação, o trabalho da constelação familiar, com sua perspectiva sistêmica que abrange gerações e a utilização da representação espacial, é uma complementação e um prolongamento essencial do espectro terapêutico no tratamento de pessoas que exibem um comportamento psicótico. Nossas experiências apoiam as tentativas de pessoas versadas em assuntos psíquicos, no sentido de buscar um entendimento de seus sintomas aparentemente incompreensíveis como “mensagens do mundo interior”[15]. Nossa tendência é de interpretá-los, antes, como indicações de implicações sistêmicas até então não compreendidas.

Tradução: Newton Queiroz

Rio de Janeiro, julho 2002

Citações

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[1] Ver a respeito Weber (1993)

[2] ver Weber (1993); Hellinger (1994), (2001), Ulsamer (2001), Nelles (2002)

[3] ver Boszormenyi-Nagy e Spark (1972), Stierlin (1981) e no psicodrama de Moreno (Moreno 1959)

[4] ver Satir (1972), Scheflen (1972) , Duhl et al. (1973), Papp (1976)

[5] ver Berne (1972)

[6] Para conhecer o trabalho com rodadas, recomendamos a edição de vídeo “Wie Liebe gelingt”(Como o amor dá certo), Carl-Auer-Systeme Verlag, Heidelberg.

[7] Ver também Hildenbrand (2002)

[8] Ver Hellinger (1995)

[9] Ver Baxa (2001)

[10] Ver Langlotz (1999), Hellinger (2001), Ruppert (2002)

[11] Ver Mentzos (19 ).

[12] Ver também relatos sobre famílias alemãs onde familiares foram envolvidos em ações criminosas na época nazista, ou foram vítimas de crimes: Hellinger (1998 und 2001a), Ruppert (2002).

[13] Ver também Mayer (1998)

[14] Ver também Simon et al. (1989) sobre dissociação sincrônica.

[15] Ver Stratenwerrth e Bock (1998)