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OLHANDO PARA OS EXCLUÍDOS: RELATO SOBRE A EXPERIÊNCIA DA CONSTELAÇÃO FAMILIAR NA CPMA DE BELFORD ROXO/RJ.

INTRODUÇÃO

Em março de 2016, a convite do Juiz Alfredo Marinho, responsável pela Central de Penas e Medidas Alternativas – CPMA – de Belford Roxo/RJ, eu comecei a ministrar grupos de Constelação Familiar para homens e mulheres que cumpriam medidas alternativas naquela central. O que me motivou a dizer sim a esse convite foi a espontaneidade de como tudo aconteceu e também por uma sensação de estranhamento interno que tenho desde que percebi a naturalização social da frase “bandido bom é bandido morto”.  O que quero dizer com isso é que mesmo que ao nível particular alguns de nós não concorde com essa frase, simbolicamente, é assim que nós, enquanto sociedade, tratamos nossos bandidos: através da exclusão, perdendo o direito de pertencer.

Uma coisa já é sabedoria popular: “a prisão não recupera ninguém”, “entrar pra prisão é o mesmo que entrar pra escola do crime, sai pior”. Michel Foucault, filósofo e grande colaborador nos estudos sobre a história das prisões, têm diversas obras, a mais popular sobre o tema é Vigiar e Punir: nascimento da prisão, (1997), onde ele desconstrói a ideia de prisão como uma instituição com a finalidade de tratar para reinserção social e trás luz para todas as relações de poder implicadas ali e na sociedade. Erving Goffman, em seu livro Manicômios, prisões e conventos, aponta os sofrimentos físicos e psíquicos que uma instituição total causa no ser humano, não apenas naqueles que estão “assistidos” pela instituição como também para aqueles que compõem os serviços da mesma. Mesmo assim, quando há propostas para a ampliação de medidas alternativas e, como consequência, diminuição de encarceramento, a sociedade ainda resiste. Mas se todos saem perdendo com a forma com que tratamos a justiça atual, porque resistir a mudança? Alípio de Souza Filho, em seu livro Medo, mitos e castigos: notas sobre a pena de morte, dialoga sobre como nos filiamos a ideologias por medo. O medo gera rigidez ao nosso corpo, que adicionado de um impulso, é a própria força. Quando estamos alinhados com nossa presença, ocupamos o nosso lugar no mundo, e assim temos a capacidade de perceber que a nossa força vem de nós mesmos e não do externo, ou seja, a segurança está em nós. O problema e quando sentimos o medo e não percebemos a força em nós, nos tornamos inseguros e, muitas vezes, atribuímos a força de proteção ao externo, deixando assim de nos responsabilizarmos pelas possibilidades de novas estratégias que o medo também pode ensinar. Ficamos retraídos diante do novo e da nossa força para o mesmo. Luis Antônio Baptista, em seu artigo A atriz, o padre e a psicanalista: os amoladores de faca, debate sobre como determinados saberes, em sua distorção, auxiliam a sociedade a produzir ainda mais exclusões, evidenciando mais ainda o desempoderamento dos sujeitos como seres constituintes da sociedade.

Marianne Williamson (1992) disse “nosso maior medo não é sermos inadequados, nosso maior medo é descobrir que somos muito mais poderosos do que pensamos. É nossa luz e não nossas trevas, aquilo que mais nos assusta. Vivemos nos perguntando quem sou eu, que me julgo tão insignificante, para aceitar o desafio de ser brilhante, sedutora, talentosa, fabulosa? Na verdade porque não? Ser medíocre não vai ajudar em nada o mundo. Não existe nenhum mérito em diminuir nossos talentos apenas para que os outros não se sintam inseguros ao nosso lado. Nascemos para manifestar a glória de Deus, que está em todos nós, e não somente em alguns. Quando tentamos mostrar essa glória, inconscientemente damos permissão para que os outros também mostrem. Quanto mais livre formos, mais livres tornamos aqueles que nos cercam”. Percebemos então a importância do empoderamento dos indivíduos, pois assim podemos também reconhecer como somos vinculados uns com os outros. Alexander Solzhenitsyn também contribuiu dizendo “Ah se fosse tão simples! Se houvessem pessoas más em um lugar, insidiosamente cometendo más ações, e se nos bastasse separa-las do resto de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem e o mal atravessa o coração de todo ser humano. E quem se disporia a destruir uma parte do seu próprio coração?” Nessa perspectiva conseguimos diferenciar um olhar de integração, onde o bem e o mal fazem parte, de um olhar pautado na exclusão, onde só alguns servem.

DESENVOLVIMENTO

Há sete anos atrás, quando já estava apaixonada pela Constelação Familiar, resolvi me dedicar ao estudo aprofundado dessa terapia. Descobertas sobre o campo, as ordens do amor, os vínculos entres os sistemas e tantas outras, ampliaram a minha percepção de mundo, até então ainda muito impregnado pela visão dicotômica da vida. Bert Hellinger, criador da Constelação Familiar, elaborou sobre 3 níveis de consciência sob os quais somos inseridos: Individual; é a consciência do eu, muito útil na fase da infância. É uma consciência baseada no ego, onde existem julgamentos entre bom e ruim. Grupal; é a consciência onde nos percebemos pertencentes a um grupo e faremos de tudo para manter o grupo, com seus valores e padrões. Aqui o serviço está em manter o grupo, também ainda há julgamentos de bom e ruim. Espiritual; aqui nada está fora, tudo pertence ao todo. Aqui não há bom ou ruim, tudo existe. E é nesse nível de consciência que a Constelação Familiar atua, a serviço da reconciliação, onde o todo é sempre maior que as partes, e, por isso, tudo têm que estar incluído (Celma Villa Verde, 2014).

Inicie a Constelação Familiar na CPMA de uma forma espontânea: o Juiz Alfredo Marinho havia ouvido falar sobre a técnica e foi atrás da mesma. Nos conhecemos através de um psicólogo que trabalha em Belford Roxo, Clésio, e nos apresentou. Fizemos um acordo básico que consistia em um grupo quinzenal de constelação familiar, de 3 horas de duração, aberto a homens e mulheres que cumprem medidas alternativas na CPMA de Belford Roxo. Essas horas contam como horas a serem cumpridas na pena dos mesmos. A participação dos réus é de caráter não obrigatório. Assim que iniciei os grupos percebi que apesar de estar respaldada por uma técnica que eu confiava na potência de transformação na vida das pessoas, eu precisava ouvir a demanda daquela situação ainda nova pra mim. Passei a explicar brevemente sobre a Constelação familiar no início dos grupos e a perguntar em que eles achavam que precisavam de ajuda. E as respostas foram diversas, desde ajudas relacionadas a pena que estavam cumprindo; exemplo: não consigo cumprir as horas que devo ou achei a minha pena injusta, até questões relacionados no campo privados; exemplo: tenho dificuldades na relação com a minha filha, meu casamento está muito conturbado. A partir disso pudemos ter trocas mais sinceras sobre ser no mundo, onde todos têm dificuldades e acertos com a existência própria. Onde todos prestam, porque todos existem, cada um com sua história, e cada história com sua riqueza: compostas de medos e forças, acertos e erros, convicções e desconstruções.

Bert Hellinger, em seu livro conflito e paz, explica como o conflito do mundo, por exemplo, uma guerra num país pequeno, revela também sobre algum conflito interno nosso, no campo do privado, do interno de cada um. Ele nos provoca a refletirmos sobre a nossa forma de ser e olhar para a vida como um todo. Nessa lógica podemos compreender que não existe o criminoso como o mal a ser exterminado, e sim um crime onde houve um responsável pelo ato, mas que aconteceu numa sociedade composta por vários outros indivíduos que compões o todo. Aquele crime pertence ao criminoso e todos nós. Isso não significa “passar a mão na cabeça de bandido”, isso significa aceitar que uma parte minha também está colaborando naquela situação porque eu faço parte da vida e tenho um poder sobre ela. Trata-se do inverso, trata-se de se empoderar pela possibilidade de transformação de qualquer coisa que pareça inadequado à sociedade. Assim quebramos a visão daquilo que presta e daquilo que não presta e podemos avistar um cenário menos polarizado: tudo presta e porque em tudo há possibilidade de desenvolvimento e crescimento.

CONCLUSÃO

Através da Constelação Familiar podemos perceber, de forma clara, nosso lugar de potência no nosso sistema familiar, e portanto, no mundo. Aquele que aceita suas origens, têm maiores possibilidades de aceitar a sua força na vida. (Bert Hellinger, 2007 e 2015). O que venho percebendo atrás desse grupo de Constelação Familiar em Belford roxo é que junto com os problemas vieram também às soluções e, a partir do uso dessa ferramenta terapêutica, eu recebi feed backs do tipo: “Doutora, bateram de madrugada na minha casa para tirar satisfação de uma fala que eu realmente tive sobre outro colega. Mas o homem que bateu em minha porta estava alterado e com muita raiva, e eu não. Disse a ele que no dia seguinte resolveria aquela situação, mas que naquele momento ele não estava disponível para aquilo.” Ele concluiu relatando o susto da sua companheira diante daquela reação; ele a respondeu “agora eu estou na minha presença e não desperdiçarei a minha força”. Também presenciei um caso de um homem que não conseguia cumprir suas horas e já estava desistumulado coma quela situação. Após frequentar o grupo, passou a cumprir. No natal de 2016 ele presenteou o grupo com um relógio e disse que agora ele não perde mais a hora.

Percebo que a Constelação Familiar não é um remédio mágico que vá solucionar problemas, mas sim uma ferramenta que serve a ampliação de consciência sobre determinados acontecimentos. Com isso ela ajuda a perceber novas verdades acerca do mesmo, gerando possibilidades de crescimento. Eu ainda não tenho provas científicas de onde a Constelação Familiar pode ajudar na CPMA de Belford Roxo/RJ, mas eu já consigo reconhecer os seus efeitos.

Atualmente esse grupo é composto por outra terapeuta, que reveza comigo os dias em Belford Roxo e também começamos a atendar alguns casos de conflito, indicados pela área responsável. A passos de formiga estamos descobrindo juntos, onde esse movimento vai nos levar. E co-criando uma linha de fuga num espaço ainda tão excludente.

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS:

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão; Petrópolis, Vozes, 1987.

GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos; São Paulo, Perspectiva, 1961.

SOUZA FILHO, Alípio de. Medos, mitos e castigos: notas sobre a pena de morte. São Paulo, Cortez, 2001.

BAPTISTA, Luis Antônio dos Santos. A atriz, o padre e a psicanalista: os amoladores de facas. Em: NASCIMENTO, Maria Lívia do. Anuário do laboratório de subjetividade e política. Niterói/RJ, Departamento de Psicologia UFF, 1992.

SHELDRAKE, Rupert. A sensação de estar sendo observado. Cultrix, 2004.

REICH, Wihelm. Analise do caráter. São Paulo, Martins Fontes, 1998.

VILLA VERDE, Celma Nunes. Constelação familiar: do tradicional ao medial; um guia para o amor. Curitiba, CVR, 2015.

HELLINGER, Bert. Ordens do amor. São Paulo, Cultrix, 2007.

HELLINGER, Bert. Conflito e paz. São Paulo, Cultrix, 2007.

HELLINGER, Bert. Olhando para a alma das crianças. Belo Horizonte, Atma, 2015.

HELLINGER, Bert. A fonte não precisa perguntar pelo caminho. Belo Horizonte, Atma, 2007.

FLAVIA NUNES VILLA VERDE: Psicóloga (PUC-Rio), Orgonoterapeuta (Formação Ana Luz e Pablo Zaffaroni) e Terapeuta de Constelação Familiar (Formação Celma Villa Verde no Brasil, Hellinger Sciencia na Alemanha e CUDEC no México), com especialização em distúrbios alimentares, trauma e pedagogia. Atende em clinica particular, individual e grupos, ministra aulas de Constelação Familiar na Formação Celma Villa Verde e ministra grupos de Constelação Familiar na CPMA de Belford Roxo/RJ.

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QUANDO ESCOLHER FAZER AS “NOVAS CONSTELAÇÕES FAMILIARES”

Você está pronto para as “Novas Constelações?”

Numa “Constelação Familiar Tradicional”, o cliente escolhe um tema que esteja o afligindo naquele momento em sua vida, porém nas “Novas Constelações” não há um pedido, não necessitamos de um motivo aparente para constelar. Neste caso, o que é importante vem à luz.  Assim, configuramos um representante  para a  pessoa (cliente) e vemos o que acontece, sem nenhuma palavra, estamos em outro nível dimensional, onde não queremos nada, onde não temos nenhuma intenção. Em pouco tempo tudo vem à luz e se torna claro, sem se falar nada. Chamamos de movimento das forças criadoras. Sem pergunta, sem objetivo, os representantes sendo levados para outro nível paradimensional. Quando o cliente está em paz, terminamos o trabalho sem dizer nada.

Para onde nos leva esta força? Para várias possibilidades.

Nas “Novas Constelações”, o problema principal que estava inconsciente para a pessoa, se revela, é trabalhado,  e assim, ela pode seguir em frente.

A pergunta que cabe aqui é: o que acontece com o terapeuta? Como fica o ego do terapeuta diante da única verdade que é a de revelar o campo e se retirar, diante da impotência de tal revelação sem poder sequer traduzir esta imagem que se revela ali. Terá que estar muito maduro e muito à serviço de uma força maior.

E o cliente? Está pronto e maduro para se entregar a uma escolha desta?

 

Celma Nunes Villa Verde

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A Constelação Familiar no Atendimento Individual

A Constelação Familiar é uma técnica criada por Bert Hellinger (psicoterapeuta alemão), onde se cria “esculturas vivas” reconstruindo a árvore genealógica, o que permite localizar e remover bloqueios do fluxo amoroso de qualquer geração ou membro da família.

 

Muitas das dificuldades pessoais, assim como problemas de relacionamento são resultados de confusões nos sistemas familiares. Esta confusão ocorre quando incorporamos em nossa vida o destino de outra pessoa viva ou que já viveu no passado, de nossa própria família sem estar consciente disto e sem querer. Isto nos faz repetir o destino dos membros familiares que foram excluídos ou não reconhecidos no lugar que pertencia a eles.

 

Durante o decurso de uma Constelação, é permitido ao terapeuta ter uma perspectiva sobre as diferentes dinâmicas que atuam no sistema familiar do cliente, orientando o processo e testando cada dinâmica quanto ao seu significado. A fim de avaliar este processo, o terapeuta pode sugerir ao cliente vivenciar a técnica numa sessão individual.

 

O atendimento individual de Constelação familiar passa a ser uma ferramenta muito rica e dinâmica para o psicoterapeuta, já que mostra uma imagem clara de determinada circunstância da vida do cliente, permitindo ser trabalhada de várias formas diferentes.  Com base na imagem que aparece, o terapeuta pode escolher, naquele momento, dar continuidade e trabalhar a Constelação propriamente dita, ou pode optar , depois de ver a imagem, trabalhá-la de outras formas,  utilizando outras técnicas que naquele momento  e circunstância lhes parecer mais conveniente.

 

A sessão individual pode ser efetuada também de duas formas diferentes. A primeira, com “bonecos” servindo de representantes dos familiares do cliente, ou com  “papéis no chão”, onde o cliente participa mais ativamente do processo, pois entra no lugar dos seus próprios familiares, percebendo cada situação.

 

Os passos de uma sessão individual não diferem muito do procedimento realizado na Constelação em grupo. Inicialmente o cliente chega ao nosso consultório, esclarecendo porque veio e quem o indicou. Já desde o início, a atenção se volta para duas perspectivas, o problema e a solução desejada. A descrição do problema abrange os sintomas, incluindo tudo que enfraquece o cliente e o que ele não deseja manter. A solução envolve os recursos do cliente e o que o fortalece.

 

Nesta fase pergunto ao cliente o que ele conhece sobre o trabalho de Constelação Familiar, a fim de saber em que nível devo começar ou que informações ainda preciso para começar o trabalho. Na maior parte das vezes, os clientes, que não são os seus de psicoterapia, vêm indicados por outras pessoas e pouco ou nada sabem sobre o trabalho. Neste caso, eu os introduzo brevemente nos pensamentos básicos que orientam o trabalho. Muitas vezes temos que orientar o cliente quanto ao contexto de uma sessão de Constelação, por ser uma abordagem nova de terapia e por possuir uma forma mais abreviada, exigirá do cliente uma mudança de atitude ou de paradigmas, fazendo-o ter uma visão mais ampliada de sua história.

 

O próximo passo é mostrar a estrutura da Constelação, pedindo ao cliente que coloque os personagens de sua trama familiar. Neste caso, o terapeuta pode escolher, naquele momento, trabalhar com “bonecos” ou “papéis no chão”, de acordo com o que achar mais conveniente para a situação.  A cada imagem formada, o cliente pode fechar os olhos e imaginá-la em sua mente, entrando assim naquela sensação e assim dando informações significativas e indicando caminhos.

 

Quando encontramos os bloqueios dentro daquela “trama”, utilizamos as frases de solução para a harmonização daquela situação, frases estas que na maior parte das vezes é repetida pelo próprio cliente.

 

Muitas vezes o terapeuta pode entrar na representação de um dos familiares dentro daquela Constelação, caso o trabalho esteja sendo feito com “papéis no chão”, interagindo com o cliente, encontrando assim a solução final.

 

Encerrada a sessão, o procedimento é o mesmo que na Constelação em grupo. Damos o tempo necessário para que àquela situação trabalhada encontre fortalecimento e paz para o cliente.

 

Celma Nunes Villa Verde

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A Indignação

Quando nos tornamos indignados sobre uma situação qualquer, parece que estamos do lado do bem e contra o mal, do lado da justiça e contarároi à injustiça. Parecemos então ser aquele que intervém entre o agressor e sua vítima de modo a impedir um mal maior. Contudo, pode-se também intervir entre eles com amor, e isso seria, com certeza, melhor. Assim, o que o indigando quer? O que ele realmente obtém?

O indignado se comporta como se ele próprio fosse uma vítima, embora não seja. Ele assume o direito de exigir uma reparação do agressor embora nehuma injustiça tenha sido feita, pessoalmente a ele. Ele assume a tarefa de advogado das vítimas, como se ele tivesse dado a ele o direito de representá-las; e fazendo assim, deixa as verdadeiras vítimas sem direito.

E o que faz o indignado com esta pretensão? Ele toma a liberdade de fazer coisas más aos agressores sem medo de qualquer consequência ruim para sua própria pessoa; pois suas más ações parecem estar a serviço do bem, e assim elas não temem qualquer punição. De modo a manter sua indignação justificada, tal pessoa dramatiza tanto a injustiça sofrida pelas vítimas quanto as consequências das ações da parte culpada. Ela intimida as vítimas a verem a injustiça pelo mesmo modo com ela mesma vê. De outro modo, caso as vítimas naõ concordem, tornam-se suspeitas e alvo de uma indignação justificada ,como se elas mesmas fossem agressores.

Da perspectiva da indignação é difícil para as vítimas deixar seu sofrimento ir embora, e é difícil para os agressores deixarem sua culpa ir embora. Se às vítimas e aos agressores for permitido encontrar uma resolução e uma reconciliação por seus próprios meios, elas podem se permitir, uma a outra, um novo começo. Mas se a indignação entra em cena, tal resolução é muito mais difícil, pois o indignado, geralemente, não fica satisfeito até que o agressor tenha sido completamente destruído e humilhado, mesmo que isto, ao ser feito, intensifique o sofrimento das vítimas.

A indignação é em primeiro lugar uma questão de moralidade. Isto quer dizer que o indignado não está realmente preocupado em ajudar outra pessoa, mas comprometido com uma certa demanda para a qual ele se proclama o executor. Deste modo, ao contrário de alguém que ama, tal pessoa naõ conhece nem contenção, nem compaixão.

“Nós estamos liberados do mal quando podemos, serenamente, deixá-lo ir.”

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A Perspectiva fenomenológico-existencial

Filósofos como Kierkegaard, Sartre, Merleau-Ponty e Heidegger cada um a seu modo, fazem críticas ao racionalismo, causalismo, determinismo e reducionismo aplicados às ciências do homem. Declaradamente, os três últimos, seguindo a tradição fenomenológica inaugurada por Husserl, procuram demonstrar como as ciências humanas perdem sua autonomia neste mundo técnico e como podem ainda se recuperar e estar a serviço de uma compreensão do homem no mundo contemporâneo.

A Perspectiva fenomenológico-existencial (clique para download)

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Ajudando crianças difíceis

1. O amor que sabe

 

 

A idéia de que devem e podem assumir algo pelos pais ou ancestrais faz parte do pano de fundo que causa dificuldades aos filhos. Isso leva a problemas intermináveis para eles. E de certa forma também para os pais. Para entendermos isso é necessário que saibamos algo sobre a diferença entre as diversas consciências.

 

 

2. A boa e a má consciência

 

Nós sentimos a nossa consciência como boa e má consciência, como inocência e culpa. Muitos pensam que isso teria a ver com o bom e o mau. Contudo, não é assim. Isso tem a ver com o vínculo à família e com a separação dela. Cada um de nós sabe, intuitivamente, com a ajuda de sua consciência, o que deve fazer para fazer parte dela. Uma criança sabe, intuitivamente, o que deve fazer para pertencer à família. Caso se comportar de maneira correspondente ela tem uma boa consciência. Uma boa consciência significa então: eu sinto que tenho o direito de pertencer.

 

Se uma criança se desvia disso ou se nós nos desviamos disso, temos medo de perder o pertencimento. Sentimos esse medo como uma má consciência. Uma má consciência significa, portanto: tenho medo de ter colocado em jogo o meu direito de pertencer.

 

Sentimos a boa e a má consciência de formas diferentes em diferentes grupos. Até as sentimos de forma diferente, conforme cada pessoa. Por isso temos, por exemplo, em relação ao pai uma consciência diferente da que temos em relação à mãe e na profissão uma outra consciência diferente da que temos em casa. Portanto, a consciência muda continuamente porque temos de grupo a grupo e de pessoa a pessoa uma outra percepção, pois de grupo a grupo e de pessoa a pessoa o que devemos fazer ou deixar de fazer é algo diferente, para podermos pertencer.

 

Com a ajuda da consciência também diferenciamos aqueles que nos pertencem daqueles que não nos pertencem. Na medida em que a consciência nos vincula à nossa família, ela nos separa de outros grupos ou pessoas e exige de nós que nos separemos deles. Por isso, devido à nossa consciência temos freqüentemente sentimentos de rejeição e até de inimizade em relação a outras pessoas e a outros grupos. Essa rejeição tem a ver com a necessidade do pertencimento e tem pouco ou quase nada a ver com o bom e o mau. Portanto, essa consciência é uma consciência que sentimos. Com a ajuda dessa consciência, diferenciamos entre o bom e o mau, mas sempre apenas em relação a um determinado grupo.

 

 

3. O emaranhamento

 

Contudo, existe ainda uma outra consciência oculta, uma consciência arcaica, uma consciência coletiva. Essa consciência segue outras leis diferentes daquelas ditadas pela consciência que sentimos. É a consciência do grupo. Essa consciência vela para que numa família todos se submetam a determinadas ordens que são importantes para a sua sobrevivência e união.

 

Em primeiro lugar, o que faz parte dessas ordens, é que cada um que pertence tem o mesmo direito de pertencer. Contudo, sob a influência da consciência que sentimos, algumas vezes excluímos algumas pessoas da família. Por exemplo, aqueles que pensamos que são maus, também aqueles dos quais temos medo. Nós os excluímos porque pensamos que sejam perigosos para nós. Contudo, através dessa outra consciência oculta, aquilo que fazemos de boa consciência, seguindo a consciência que sentimos, será condenado. Pois esta outra consciência não tolera que alguém seja excluído. Entretanto, se isso acontecer, alguém será posteriomente condenado, sob a influência dessa consciência oculta, a imitar e representar um excluído em sua vida, sem que tenha consciência disso. Denomino essa ligação inconsciente com uma pessoa excluída de “emaranhamento”.

 

Por isso, podemos entender que muitos filhos, os quais pensamos que estão se comportando de forma estranha ou estariam em perigo de se suicidar, ou se tornam drogaditos ou não importa o que seja, estão conectados com uma pessoa excluída. Estão emaranhados com essa pessoa. Por isso só podemos ajudá-los se eles e outras pessoas na família tiverem em seu campo de visão essa pessoa excluída, colocando-a novamente na família e no próprio coração. Depois disso, os filhos estarão liberados do emaranhamento.

 

Para ajudar esse tipo de filhos, outros membros familiares que até então ignoraram essas pessoas precisam finalmente olhar para elas. E aqueles com os quais estavam zangadas ou rejeitaram precisam se dedicar a elas com amor e acolhê-las novamente na família. Esse é o pano de fundo para muitas dificuldades que as crianças têm, e também a preocupação que algumas vezes seus pais têm por elas.

 

 

4. O amor cego

 

Contudo, existe para essa consciência oculta ainda uma outra lei. Essa lei também traz dificuldades às crianças. Essa lei exige que aqueles que pertenceram antes à família, tenham precedência em relação àqueles que vieram mais tarde. Portanto, existe entre os membros anteriores e os posteriores uma hierarquia. Essa hierarquia precisa ser obedecida. Contudo, muitas crianças tomam a liberdade de assumir algo pelos pais para ajudá-los. Com isso transgridem a hierarquia. Então a criança diz para a mãe ou pra o pai, sob a influência dessa consciência, frases internas, tais como: ”Eu assumo isso por você.” “Eu expio por você.” “Vou adoecer em seu lugar.” “Vou morrer em seu lugar.” Tudo isso acontece por amor, mas por um amor cego. Esse amor cego leva às drogas ou ao perigo de vida e comportamentos agressivos. Entretanto, estes tipos de comportamento e esses perigos têm a ver com a tentativa de assumir algo pelos pais. Essa ordem é violada e ferida dessa forma.

 

 

5. A ordem

 

Quando ficamos sabendo dessa ordem, podemos restabelecê-la novamente. Isso significa, por exemplo: os pais assumem as conseqüências de seu próprio comportamento, de seu próprio emaranhamento e os carregam sozinhos. Então a criança estará livre. Ela não precisa assumir nada daquilo que é da alçada dos outros.

 

Contudo, a transgressão da ordem de origem é castigada duramente por essa consciência oculta. Toda criança que tenta assumir algo pelos pais ou por outros que vieram antes dela, fracassa. Nenhuma tentativa de assumir algo pelos pais tem sucesso. Está sempre fadada ao fracasso e, na verdade, para todos os envolvidos. Nós precisamos saber disso. Por isso, ajudamos as crianças a se soltarem dessa intromissão. Ao invés de olhar para as crianças, olhamos primeiro para os pais e deixamos que eles mesmos resolvam os problemas. Se os pais resolverem isso, os filhos se sentem livres. Eles ficam novamente tranqüilos e se sentem acolhidos. Portanto, estas são duas leis básicas que devemos ter no nosso campo de visão e estar em acordo interno quando se quer ajudar crianças difíceis.

 

Bert Hellinger

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Aplicação da metodologia sistêmica num curso de formação para professores do ensino especial

Minha atuação em cursos

 

 

Há muitos anos venho trabalhando com cursos de formação para professores da Educação Especial e nestes cursos minha atuação sempre esteve voltada para teoria e prática envolvendo dinâmicas que pudessem trabalhar os profissionais em um âmbito maior de reflexão. Mesmo com o pouco conhecimento relacionado ao trabalho sistêmico fenomenológico de Bert Hellinger, parece que esta postura vai tomando conta do nosso interior e nosso olhar sistêmico vai ficando cada vez mais intenso, passando a atuar com ela em todos os momentos. Humildemente vou relatar alguns momentos onde o olhar sistêmico foi fundamental para desenvolvimento do curso.

 

 

Aula dos nomes:

 

 

Nesta aula falamos da importância do ensino do nome próprio para as crianças, desde a educação infantil. Sempre inicio fazendo uma dinâmica para que os professores relacionem a teoria com a prática. Recortei em papel colorido uma camisa, do lado direito com manga e do lado esquerdo sem manga, entreguei a todos os participantes. Acharam estranha a diferença na manga, mas disse a todos que tinha um objetivo. Pedi que escrevessem em letra de forma o nome deles na parte inferior da camisa, e desenhassem no meio da camisa eles próprios, em seguida falamos sobre a importância do nome e a história de cada nome, depois pedi que escrevessem no lado direito da camisa, com manga, o nome do papai (representando o masculino) e no lado esquerdo, sem manga, o nome da mamãe (representando o feminino). Logo depois pedi que fechassem os olhos e visualizassem o papai e a mamãe atrás deles.Alguns disseram que o pai já havia morrido e disse para visualizar assim mesmo, pois continuava sendo o pai. Depois falamos que a força dos filhos está nos pais, que só podemos estar hoje juntos aqui neste curso graças aos nossos pais que juntos nos deram a vida e também afirmamos que do jeito que eles são , exatamente assim, são os pais certos para nós. Fizemos a relação com os pais dos alunos e pedi que todos naquele momento olhassem para seus alunos. Quando olhamos para os alunos estamos também olhando para os pais dos alunos. Disse que devemos concordar com os pais dos nossos alunos do jeito que são. Claro que gerou alguma polêmica, e houve alguns que se colocaram resistentes, mas disse a todos que quando iniciei a aula olhei para todos com seus pais, concordando com cada um jeito que é, ou seja, concordando com a família de vocês do jeito que é.

 

Para Hellinger (2005): “Uma criança só pode estar bem consigo mesma quando toma seus pais. Toma, é o que eu disse. Isto é, que os tomo do jeito que são e os respeito do jeito que são, sem querer ou desejar algo diferente. Exatamente do jeito que são, eles são certos. Quem toma os pais dessa forma está em paz consigo mesmo, sente-se completo. Seus pais estão presentes dentro dele com toda a força.(p.137).”

 

Fizemos um mural com as camisas e ali ficou representado cada um de nós e nossa família. Depois prosseguimos com o conteúdo dos nomes próprios. Aquele momento produziu um efeito maravilhoso em cada um, bastava olhar no semblante das pessoas. A força dos nossos pais atuando conosco durante todo o curso e por toda nossa vida.

 

 

 

 

Planejamento

 

 

 

Uma das aulas foi dedicada ao planejamento. Como já vinha observando que muitos dos professores do curso tinham dificuldade ou resistência a planejar e outros não sabiam como fazer o planejamento e alguns até achavam desnecessário, atuei com um exercício que ajudaria na mudança de postura relacionada ao tema.

 

Quase no final das atividades fiz a proposta ao grupo para que fizéssemos um exercício.

 

 

– “Escolham um colega e fiquem em duplas. Agora vocês vão olhar para este colega e se concentrar”.

 

 

Muitos estavam sorrindo quando olhavam para o colega. Pedi que olhassem nos olhos do colega e escolhessem quem seria o professor.

 

 

Alguns perguntaram: – “O outro será o aluno?”. Respondi que não estaríamos trabalhando com alunos naquele momento e que um seria o professor e o papel do outro eu só esclareceria ao final do exercício. Depois que escolheram pedi que deixassem o olhar do outro atuar e que não deveriam conversar, relaxassem as mãos e que eu iria falar algumas frases para que o professor repetisse.

 

 

Para o professor: – “Eu não gosto de trabalhar com você”. “Eu tenho resistência em trabalhar com você”. “Você é desnecessário”. “Eu não sei e não quero trabalhar com você”. “Eu não concordo com você e nem com o que vem antes de você”.

 

 

Logo em seguida pedi para que prestassem atenção no que estavam sentindo no corpo e alguns disseram que estavam se sentindo mal com o que o professor disse, outros continuavam sorrindo e diziam não sentir nada, outros diziam estar tristes como se quisessem sair daquele lugar.

 

 

Disse então a todos que iríamos refazer as frases, que se concentrassem novamente, que eles observassem o corpo e se ao final das frases sentissem vontade de fazer algum movimento, poderiam fazê-lo.

 

 

Disse então para o professor repetir: – “Eu gosto de trabalhar com você”. “É gratificante trabalhar com você”. “Você é necessário, minha resistência acabou”. “Eu quero aprender a trabalhar com você”. “Eu concordo com você e com o que vem antes de você do jeito que é”.

 

 

Em seguida, orientei a eles que poderiam fazer o movimento que sentiam vontade: alguns puxaram o professor, outros se abraçaram, outros choraram. Em outros casos era o professor que puxava o outro representante e alguns continuaram sorrindo. Depois trocamos os papéis para que todos tivessem a oportunidade de ser o professor e o outro representante. Após o exercício, revelei a todos que o outro representante era o planejamento, e que eles tiveram a oportunidade de perceber onde estão as dificuldades. Disse a todos também que o planejamento estava ali, ele queria que os professores trabalhassem com ele, respeitando aquilo que se passou e concordando do jeito que as coisas eram, para que as mudanças pudessem acontecer. À frente do planejamento sempre haverá alguém. Sendo assim, que observassem se as dificuldades não estavam relacionadas a esta pessoa, (coordenador, aluno, colegas de trabalho, direção) e não ao planejamento em si.

 

 

Alguns alunos do curso relataram o que sentiram:

 

– “Quando o professor parou de falar fiquei emocionada e quis puxá-lo para mim”;

 

– “Quando eu terminei minha fala a vontade era de pegar o planejamento para fazer algo, parecia que ele me pedia isso, mas não sabia que o representante era o planejamento”.

 

– “Foi estranho, mas o meu olhar enquanto planejamento estava apaixonado pelo professor”.

 

– “Eu só queria rir e não consegui sentir nada”.

 

 

Estes relatos foram os que ficaram registrados. Pedi a todos que sentissem o que aconteceu com cada um, não precisavam mais relatar, mas que deveriam buscar perceber como lá no fundo aquela vivência poderia ajudá-los no trabalho…

 

Aquele momento foi muito importante para a continuidade do curso e para a atuação dos professores no próximo planejamento. Pude observar no decorrer do ano uma grande melhora em relação ao planejamento. Reconheço que os ensinamentos de Bert Hellinger nos abrem muitas oportunidades, quando estamos conectados a ele. Humildemente agradeço.

 

 

 

Hellen Vieira da Fonseca Teles

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As ordens da ajuda

Tradução: Newton A. Queiroz

 

Advertência do tradutor

Acho necessário dar um breve esclarecimento prévio sobre os dois vocábulos-chave do presente texto.

1. Ajuda, ajudante O título original do artigo é Die Ordnungen des Helfens, literalmente: As Ordens do Ajudar, que prefiro traduzir por As Ordens da Ajuda, por ser mais consoante com nosso uso. Assim, deve-se entender por ajuda, no presente texto, principalmente a maneira de ajudar e a atitude de quem presta ajuda. Quem presta ajuda – no mais das vezes, profissionalmente – é o que Hellinger denomina “der Helfer”, e que traduzimos literalmente, na falta de termo melhor, por “o ajudante”. Nesta categoria estão compreendidos principalmente os que profissionalmente prestam assistência a outras pessoas (o médico, o terapeuta, o assistente social, o sacerdote…), como também aqueles que o fazem voluntariamente, em caráter não profissional.

2. Ordens As “ordens”, no sentido típico de Bert Hellinger, são as leis, princípios ou ordenações básicas preestabelecidas, que devem presidir nossos comportamentos. Assim, as “ordens do amor” são as leis que devem presidir nossos relacionamentos, para que o amor seja bem sucedido, e cujo desconhecimento ou desrespeito pode ocasionar conseqüências funestas.

No presente texto, Bert Hellinger fala das ordens que devem presidir toda iniciativa de levar ajuda ao próximo e, de modo especial, a ação com objetivo ou efeito terapêutico.

A ajuda é uma arte. Como toda arte, envolve uma capacidade que pode ser aprendida e praticada. E envolve empatia em relação ao objeto, a saber, a compreensão do que corresponde a esse objeto e, simultaneamente, daquilo que o eleva, por assim dizer, acima de si mesmo, em algo mais abrangente.

 

Ajuda como compensação

Nós, seres humanos, dependemos, sob todos os aspectos, da ajuda dos outros, como condição de nosso desenvolvimento. Ao mesmo tempo, precisamos também de ajudar outras pessoas. Aquele de quem não se necessita, aquele que não pode ajudar outros, fica só e se atrofia. O ato de ajudar serve, portanto, não apenas aos outros, mas também a nós mesmos. Via de regra, a ajuda é um processo recíproco, por exemplo, entre parceiros. Ela se ordena pela necessidade de compensar. Quem recebeu de outros o que deseja e precisa, também quer dar algo, por sua vez, compensando a ajuda.

Muitas vezes, a compensação que podemos fazer através da retribuição é limitada. Isso ocorre, por exemplo, em relação a nossos pais. O que eles nos deram é excessivamente grande, para que o possamos compensar dando-lhes algo em troca. Só nos resta, em relação a eles, o reconhecimento pelo que nos deram e o agradecimento que vem do coração. A compensação pela doação, com o alívio que dela resulta, só se consegue, nesse caso, repassando essa dádiva a outras pessoas: por exemplo, aos próprios filhos.

Portanto, o processo de tomar e de dar se processa em dois diferentes patamares. O primeiro, que ocorre entre pessoas equiparadas, permanece no mesmo nível e exige reciprocidade. O outro, entre pais e filhos, ou entre pessoas em condição superior e pessoas necessitadas, envolve um desnível. Tomar e dar se assemelham aqui a um rio, que leva adiante o que recebe em si. Essa forma de tomar e dar é maior, e tem em vista também o que virá depois. Nesse modo de ajudar, o que foi doado se expande. Aquele que ajuda é tomado e ligado a uma realização maior, mais rica e mais duradoura.

Esse tipo de ajuda pressupõe que nós próprios tenhamos primeiro recebido e tomado. Pois só então sentimos a necessidade e temos a força para ajudar a outros, especialmente quando essa ajuda exige muito de nós. Ao mesmo tempo, ela parte do pressuposto de que as pessoas a quem queremos ajudar também necessitam e desejam o que podemos e queremos dar a elas. Caso contrário, nossa ajuda se perde no vazio. Então ela separa, ao invés de unir.

 

A primeira ordem da ajuda

A primeira ordem da ajuda consiste, portanto, em dar apenas o que temos, e em esperar e tomar somente aquilo de que necessitamos. A primeira desordem da ajuda começa quando uma pessoa quer dar o que não tem, e a outra quer tomar algo de que não precisa; ou quando uma espera e exige da outra algo que ela não pode dar, porque não tem. Há desordem também quando uma pessoa não tem o direito de dar algo, porque com isso tiraria da outra pessoa algo que somente ela pode ou deve carregar, ou que somente ela tem a capacidade e o direito de fazer. Assim, o dar e o tomar estão sujeitos a limites, e pertence à arte da ajuda percebê-los e respeitá-los.

Essa ajuda é humilde, e muitas vezes, em face da expectativa e da dor, ela renuncia a agir. O trabalho com as constelações familiares coloca diante de nossos olhos o que deve exigir quem ajuda, tanto de si mesmo quanto da pessoa que busca ajuda. Essa humildade e essa renúncia contradizem muitas concepções usuais sobre a correta maneira de ajudar, e freqüentemente expõem o ajudante a graves acusações e ataques.

 

A segunda ordem da ajuda

A ajuda está a serviço da sobrevivência, por um lado, e da evolução e do crescimento, por outro. Todavia, a sobrevivência, a evolução e o crescimento também dependem de circunstâncias especiais, tanto externas quanto internas. Muitas circunstâncias externas são preestabelecidas e não são modificáveis: por exemplo, uma doença hereditária, as conseqüências de acontecimentos ou de uma culpa. Quando a ajuda deixa de considerar as circunstâncias externas ou se recusa a admiti-las, ela se condena ao fracasso. Isto vale, com maior razão, para as circunstâncias internas. Elas incluem a missão pessoal particular, o envolvimento nos destinos de outros membros da família, e o amor cego que, sob o influxo da consciência, permanece vinculado ao pensamento mágico. O que isso significa em casos particulares eu expus exaustivamente em meu livro “ Ordens do Amor”, no capítulo “Do céu que faz adoecer, e da terra que cura”.

Para muitos ajudantes, o destino da outra pessoa pode parecer difícil, e gostariam de modificá-lo; não, porém, muitas vezes, porque o outro o necessite ou deseje, mas porque os próprios ajudantes dificilmente suportam esse destino. E quando o outro, não obstante, se deixa ajudar por eles, não é tanto porque precise disso, mas porque deseja ajudar o ajudante. Então, quem ajuda realmente está tomando, e quem recebe a ajuda se transforma em doador.

A segunda ordem da ajuda é, portanto, que ela se amolde às circunstancias e só intervenha com apoio na medida em que elas o permitem. Essa ajuda mantém reserva e possui força. Há desordem da ajuda, neste caso, quando o ajudante nega as circunstâncias ou as encobre, ao invés de encará-las, juntamente com a pessoa que busca a ajuda. Querer ajudar contra as circunstâncias enfraquece tanto o ajudante quanto a pessoa que espera ajuda ou a quem ela é oferecida ou mesmo imposta.

 

O protótipo da ajuda

O protótipo da ajuda é a relação entre pais e filhos e, principalmente, a relação entre a mãe e o filho. Os pais dão, os filhos tomam. Os pais são grandes, superiores e ricos, ao passo que os filhos são pequenos, necessitados e pobres. Contudo, porque os pais e os filhos são ligados entre si por um profundo amor, o dar e o tomar entre eles pode ser quase ilimitado. Os filhos podem esperar quase tudo de seus pais. E os pais estão dispostos a dar quase tudo a seus filhos. Na relação entre pais e filhos, as expectativas dos filhos e a disposição dos pais para atendê-las são necessárias; portanto, estão em ordem.

Contudo, elas só estão em ordem enquanto os filhos ainda são pequenos. Com o avançar da idade, os pais vão impondo aos filhos, em escala crescente, limites com os quais eles eventualmente se atritam e podem amadurecer. Estarão sendo os pais, nesse caso, menos bondosos para com seus filhos? Seriam pais melhores se não colocassem limites? Ou, pelo contrário, eles se manifestam como bons pais justamente ao exigirem de seus filhos algo que também os prepara para uma vida de adultos? Muitos filhos ficam então com raiva de seus pais, porque preferem manter a dependência original. Contudo, justamente porque os pais se retraem e desiludem essas expectativas, eles ajudam seus filhos a se livrarem dessa dependência e, passo a passo, a agirem por própria responsabilidade. Só assim os filhos tomam o seu lugar no mundo dos adultos e se transformam de tomadores em doadores.

 

A terceira ordem da ajuda

Muitos ajudantes, por exemplo, na psicoterapia e no trabalho social, acham que precisam ajudar os que lhes pedem ajuda, da mesma forma como os pais ajudam seus filhos pequenos. Inversamente, muitos que buscam ajuda esperam que os ajudantes se dediquem a eles como os pais se dedicam a seus filhos, no intuito de receber deles, tardiamente, o que esperam e exigem dos próprios pais.

O que acontece quando os ajudantes correspondem a essas expectativas? Eles se envolvem numa longa relação. Aonde leva essa relação? Os ajudantes ficam na mesma situação dos pais, em cujo lugar se colocaram com essa vontade de ajudar.

Passo a passo, eles precisam impor limites aos que buscam ajuda, decepcionando-os. Então estes desenvolvem freqüentemente, em relação aos ajudantes, os mesmos sentimentos que tinham antes em relação a seus pais. Assim, os ajudantes que se colocaram no lugar dos pais, querendo mesmo, talvez, ser pais melhores, tornam-se, para os clientes, iguais aos pais deles. Porém muitos ajudantes permanecem presos na transferência e na contratransferência da relação entre filho e pais. Com isso, dificultam ao cliente a despedida, tanto de seus pais quanto dos próprios ajudantes. Ao mesmo tempo, uma relação segundo o modelo da transferência entre pais e filhos impede também o desenvolvimento pessoal e o amadurecimento do ajudante.

Vou ilustrar isso com um exemplo:

Quando um homem jovem se casa com uma mulher mais velha, ocorre a muitos a imagem de que ele procura um substitutivo para sua mãe. E o que procura ela? Um substitutivo para seu pai. Inversamente, quando um homem mais velho se casa com uma moça mais jovem, muitos dizem que ela procurou um pai. E ele? Procurou uma substituta para sua mãe. Assim, por estranho que soe, quem se obstina por muito tempo numa posição superior e mesmo a procura e quer manter, recusa-se a assumir seu lugar entre adultos equiparados.

Existem, porém, situações, em que convém que, por algum tempo, o ajudante represente os pais: por exemplo, quando um movimento amoroso precocemente interrompido precisa ser levado a seu termo. Contudo, diferentemente da transferência da relação entre pais e filhos, o ajudante apenas representa aqui os pais reais. Ele não se coloca em lugar deles, como se fosse uma mãe melhor ou um pai melhor. Por esta razão, também não é preciso que o cliente se desprenda do ajudante, pois este o leva a afastar-se dele e a voltar-se para os próprios pais. Então o ajudante e cliente se liberam mutuamente.

Mediante a adoção desse padrão de sintonia com os pais verdadeiros, o ajudante frustra, desde o início, a transferência da relação entre os pais e o filho. Pois, quando respeita em seu coração os pais do cliente, e fica em sintonia com esses pais e seus destinos, o cliente encontra nele os seus pais, dos quais já não pode esquivar-se. A mesma coisa vale quando o ajudante precisa lidar com crianças ou deficientes físicos. Na medida em que ele apenas representa os pais, e não se coloca em seu lugar, os clientes podem sentir-se em segurança com ele.

A terceira ordem da ajuda seria, portanto, que, diante de um adulto que procura ajuda, o ajudante se coloque igualmente como um adulto. Com isso, ele recusa as tentativas do cliente para fazê-lo assumir o papel dos pais. É compreensível que essa atitude do ajudante seja sentida e criticada, por muitas pessoas, como dureza. Paradoxalmente, essa “dureza” é criticada por muitos como arrogância. Quem olha bem, vê que a arrogância consistiria antes no envolvimento do ajudante numa transferência da relação entre pais e filho.

A desordem da ajuda consiste aqui em permitir a um adulto que faça ao ajudante as exigências de um filho a seus pais, para que o trate como criança e o poupe de algo pelo qual somente o cliente pode e deve carregar a responsabilidade e as conseqüências. É o reconhecimento dessa terceira ordem da ajuda que constitui a mais profunda diferença entre o trabalho das constelações familiares e psicoterapia habitual.

 

A quarta ordem da ajuda

Sob a influência da psicoterapia clássica, muitos ajudantes freqüentemente encaram seu cliente como um indivíduo isolado. Com isso, também se expõem facilmente ao risco de assumirem a transferência da relação entre pais e filho. Contudo, o indivíduo é parte de uma família. Somente quando o ajudante o percebe assim é que ele percebe de quem o cliente precisa, e a quem ele possivelmente está devendo algo.

O ajudante realmente percebe o cliente a partir do momento em que o vê junto com seus pais e antepassados, e talvez também junto com seu parceiro e com seus filhos. Então ele percebe quem, nessa família, precisa principalmente de sua atenção e de sua ajuda, e a quem o cliente precisa dirigir-se para reconhecer os passos decisivos e levá-los a termo. Isto significa que a empatia do ajudante precisa ser menos pessoal e – principalmente – mais sistêmica. Ele não se envolve num relacionamento pessoal com o cliente. Esta é a quarta ordem da ajuda.

A desordem da ajuda, neste caso, consistiria em não contemplar nem honrar outras pessoas essenciais, que teriam em suas mãos, por assim dizer, a chave da solução. Incluem-se entre elas, sobretudo, aquelas que foram excluídas da família, por exemplo, porque os outros se envergonharam delas.

Também aqui é grande o perigo de que essa empatia sistêmica seja sentida como dureza pelo cliente, sobretudo por aqueles que fazem reivindicações infantis ao ajudante. Pelo contrário, aquele que busca a solução, de maneira adulta, sente esse enfoque sistêmico como uma liberação e uma fonte de força.

 

A quinta ordem da ajuda

O trabalho da constelação familiar aproxima o que antes estava separado. Nesse sentido, ele está a serviço da reconciliação, sobretudo com os pais. O que impede essa reconciliação é a distinção entre bons e maus membros da família, tal como é feita por muitos ajudantes, sob o influxo de sua consciência e de uma opinião pública presa nos limites dessa consciência. Por exemplo, quando um cliente se queixa de seus pais, das circunstâncias de sua vida ou de seu destino, e quando um ajudante se associa à visão desse cliente, ele serve mais ao conflito e à separação do que à reconciliação. Portanto, alguém só pode ajudar, no sentido da reconciliação, quando imediatamente dá um lugar em sua alma à pessoa de quem o cliente se queixa. Assim, o ajudante antecipa na própria alma o que o cliente ainda precisa realizar na sua.

A quinta ordem da ajuda é portanto o amor a cada pessoa como ela é, por mais que ela seja diferente de mim. Dessa maneira, o ajudante abre a essa pessoa o seu coração, de modo que ela se torna parte dele. Aquilo que se reconciliou em seu coração também pode reconciliar-se no sistema do cliente. A desordem da ajuda seria aqui o julgamento sobre outros, que geralmente é uma condenação, e a indignação moral associada a isso. Quem realmente ajuda, não julga.

 

A percepção especial

Para poder agir de acordo com as ordens da ajuda, não é preciso qualquer percepção especial. O que eu disse aqui sobre as ordens da ajuda não deve ser aplicado de forma precisa e metódica. Quem tentar isso estará p ensando, ao invés de perceber. Ele reflete e recorre a experiências anteriores, em vez de se expor á situação como um todo e apreender dela o essencial. Por isso, essa percepção envolve ambos os aspectos: ela é simultaneamente direcionada e reservada. Nessa percepção, eu me direciono a uma pessoa, porém sem querer algo determinado, a não ser percebê-la interiormente, de uma forma abrangente, e com vistas ao próximo ato que se fizer necessário.

Essa percepção surge do centramento. Nela, eu abandono o nível das ponderações, dos propósitos, das distinções e dos medos, e me abro para algo que me move imediatamente, a partir do interior. Aquele que, como representante numa constelação, já se entregou aos movimentos da alma e foi dirigido e impelido por eles de uma forma totalmente surpreendente, sabe de que estou falando. Ele percebe algo que, para além de suas idéias habituais, o torna capaz de ter movimentos precisos, imagens internas, vozes interiores e sensações inabituais.

Esses movimentos o dirigem, por assim dizer, de fora, e simultaneamente de dentro. Perceber e agir acontecem aqui em conjunto. Essa percepção é, portanto, menos receptiva e reprodutiva. Ela é produtiva; leva à ação, e se amplia e aprofunda no agir.

A ajuda que decorre dessa percepção é geralmente de curta duração. Ela fica no essencial, mostra o próximo passo a fazer, retira-se rapidamente e despede o outro imediatamente em sua liberdade. É uma ajuda de passagem. Há um encontro, uma indicação, e cada um volta a trilhar o próprio caminho. Essa percepção reconhece quando a ajuda é conveniente e quando seria antes danosa. Reconhece quando a ajuda coloca tutela ao invés de promover, e quando serve para remediar antes a própria necessidade do que a do outro. E ela é modesta.

 

Observação, percepção, compreensão, intuição, sintonia

Talvez seja útil descrever aqui ainda as diferentes formas de conhecimento, para que, quando ajudamos, possamos recorrer ao maior número delas que for possível, e escolher entre elas. Começo pela observação.

A observação é aguda e precisa, e tem em vista os detalhes. Como é tão exata, é também limitada. Escapa-lhe o entorno, tanto o mais próximo quando o mais distante. Pelo fato de ser tão exata, ela é próxima, incisiva, invasiva e, de certa maneira, impiedosa e agressiva. Ela é condição para a ciência exata e para a técnica moderna decorrente dela.

A percepção é distanciada. Ela precisa da distância. Ela percebe simultaneamente várias coisas, olha em conjunto, ganha uma impressão do todo, vê os detalhes em seu entorno e em seu lugar. Contudo, é imprecisa no que toca aos detalhes. Este é um dos lados da percepção. O outro lado é que ela entende o observado e o percebido. Ela entende o significado de uma coisa ou de um processo observação e percebido. Ela vê, por assim dizer, por trás do observado e do percebido, entende o seu sentido. Acrescenta, portanto, à observação e à percepção externa uma compreensão.

A compreensão pressupõe observação e percepção. Sem observação e percepção, também não existe compreensão. E vice-versa: sem compreensão, o observado e percebido permanece sem relação. Observação, percepção e compreensão compõem um todo. Somente quando atuam em conjunto é que percebemos de uma forma que nos permite agir de forma significativa e, principalmente, também ajudar de uma forma significativa.

Na execução e na ação, freqüentemente aparece ainda um quarto elemento: a intuição. Ela tem afinidade com a compreensão, assemelha-se a ela, mas não é a mesma coisa. A intuição é a compreensão súbita do próximo passo a dar. A compreensão é muitas vezes geral, entende todo o contexto e todo o processo. A intuição, em contraposição, reconhece o próximo passo e, por isso, é exata. Portanto, a relação entre a intuição e a compreensão é semelhante à relação entre a observação e a percepção.

Sintonia é uma percepção a partir do interior, num sentido amplo. Como a intuição, ela também se direciona para a ação, principalmente para a ação de ajuda. A sintonia exige que eu entre na mesma vibração do outro, alcance a mesma faixa de onda, sintonize com ele e o entenda assim. Para entendê-lo, também preciso ficar em sintonia com sua origem, principalmente com seus pais, mas também com seu destino, suas possibilidades, seus limites, e também com as conseqüências de seu comportamento e de sua culpa; e, finalmente, com sua morte.

Ficando em sintonia, eu me despeço, portanto, de minhas intenções, de meu juízo, de meu superego e de suas exigências sobre o que eu devo e preciso ser. Isso quer dizer: fico em sintonia comigo mesmo, da mesma forma que com o outro. Dessa maneira, o outro também pode ficar em sintonia comigo, sem se perder, sem precisar temer-me. Da mesma forma, também posso ficar em sintonia com ele permanecendo em mim mesmo. Não me entrego a ele, mas mantenho distancia na sintonia. Com isso, ao ajudá-lo, posso perceber exatamente o que posso fazer e o que tenho o direito de fazer. Por esta razão, a sintonia é também passageira. Ela dura apenas enquanto dura a ação da ajuda. Depois, cada um volta à sua própria vibração. Por esta razão, não existe na sintonia transferencia nem contratransferência, nem a chamada relação terapêutica. Portanto, um não assume a responsabilidade pelo outro. Cada um permanece livre do outro.

 

Sobre o movimento interrompido

Quando uma criança pequena não teve acesso à mãe ou ao pai, embora precisasse deles com urgência e ansiasse por eles, por exemplo, numa longa internação hospitalar, esse anseio se transforma em dor de perda, em desespero e raiva. A partir daí, a criança se retrai diante de seus pais e, mais tarde, também de outras pessoas, embora anseie por eles. Essas conseqüências de um movimento amoroso precocemente interrompido são superadas quando o movimento original é retomado e levado a seu termo. Nesse processo, o ajudante representa a mãe ou o pai daquele tempo, e o cliente pode completar o movimento interrompido, como a criança de então.

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Assentir e soltar

Que significa aqui vazio? Qual é o processo interno que leva a esse vazio e como ele é sentido? Muito ao contrário das imagens que relacionamos ao vazio, alcançamos aquele vazio que leva à sintonia com o espírito criador, assentindo totalmente a tudo o que é tal qual é. E por quê?

Porque esse espírito é a força criadora original que a tudo impregna. Através desse assentimento nos abarrotamos de tudo o que esse espírito cria, ordena e anima. E assim, através do assentimento a tudo tal como é, alcançamos tanto a plenitude como o vazio. Porque só podemos assentir totalmente quando soltamos aquilo que é próprio em grande medida. Entretanto, ao soltá-lo, não nos esvaziamos, ao contrário. Como não enfrentamos aquilo que é como nada próprio, nos esvaziamos para a plenitude e nos tornamos um com a força que o move.

 

Só conseguimos soltar quando assentimos, e só conseguimos assentir quando também soltamos. Só nos esvaziamos quando nos abrimos a essa plenitude. O vazio e a plenitude se condicionam mutuamente. Ambas as coisas alcançamos em um mesmo processo.

Bert Hellinger