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INTRODUÇÃO

Em março de 2016, a convite do Juiz Alfredo Marinho, responsável pela Central de Penas e Medidas Alternativas – CPMA – de Belford Roxo/RJ, eu comecei a ministrar grupos de Constelação Familiar para homens e mulheres que cumpriam medidas alternativas naquela central. O que me motivou a dizer sim a esse convite foi a espontaneidade de como tudo aconteceu e também por uma sensação de estranhamento interno que tenho desde que percebi a naturalização social da frase “bandido bom é bandido morto”.  O que quero dizer com isso é que mesmo que ao nível particular alguns de nós não concorde com essa frase, simbolicamente, é assim que nós, enquanto sociedade, tratamos nossos bandidos: através da exclusão, perdendo o direito de pertencer.

Uma coisa já é sabedoria popular: “a prisão não recupera ninguém”, “entrar pra prisão é o mesmo que entrar pra escola do crime, sai pior”. Michel Foucault, filósofo e grande colaborador nos estudos sobre a história das prisões, têm diversas obras, a mais popular sobre o tema é Vigiar e Punir: nascimento da prisão, (1997), onde ele desconstrói a ideia de prisão como uma instituição com a finalidade de tratar para reinserção social e trás luz para todas as relações de poder implicadas ali e na sociedade. Erving Goffman, em seu livro Manicômios, prisões e conventos, aponta os sofrimentos físicos e psíquicos que uma instituição total causa no ser humano, não apenas naqueles que estão “assistidos” pela instituição como também para aqueles que compõem os serviços da mesma. Mesmo assim, quando há propostas para a ampliação de medidas alternativas e, como consequência, diminuição de encarceramento, a sociedade ainda resiste. Mas se todos saem perdendo com a forma com que tratamos a justiça atual, porque resistir a mudança? Alípio de Souza Filho, em seu livro Medo, mitos e castigos: notas sobre a pena de morte, dialoga sobre como nos filiamos a ideologias por medo. O medo gera rigidez ao nosso corpo, que adicionado de um impulso, é a própria força. Quando estamos alinhados com nossa presença, ocupamos o nosso lugar no mundo, e assim temos a capacidade de perceber que a nossa força vem de nós mesmos e não do externo, ou seja, a segurança está em nós. O problema e quando sentimos o medo e não percebemos a força em nós, nos tornamos inseguros e, muitas vezes, atribuímos a força de proteção ao externo, deixando assim de nos responsabilizarmos pelas possibilidades de novas estratégias que o medo também pode ensinar. Ficamos retraídos diante do novo e da nossa força para o mesmo. Luis Antônio Baptista, em seu artigo A atriz, o padre e a psicanalista: os amoladores de faca, debate sobre como determinados saberes, em sua distorção, auxiliam a sociedade a produzir ainda mais exclusões, evidenciando mais ainda o desempoderamento dos sujeitos como seres constituintes da sociedade.

Marianne Williamson (1992) disse “nosso maior medo não é sermos inadequados, nosso maior medo é descobrir que somos muito mais poderosos do que pensamos. É nossa luz e não nossas trevas, aquilo que mais nos assusta. Vivemos nos perguntando quem sou eu, que me julgo tão insignificante, para aceitar o desafio de ser brilhante, sedutora, talentosa, fabulosa? Na verdade porque não? Ser medíocre não vai ajudar em nada o mundo. Não existe nenhum mérito em diminuir nossos talentos apenas para que os outros não se sintam inseguros ao nosso lado. Nascemos para manifestar a glória de Deus, que está em todos nós, e não somente em alguns. Quando tentamos mostrar essa glória, inconscientemente damos permissão para que os outros também mostrem. Quanto mais livre formos, mais livres tornamos aqueles que nos cercam”. Percebemos então a importância do empoderamento dos indivíduos, pois assim podemos também reconhecer como somos vinculados uns com os outros. Alexander Solzhenitsyn também contribuiu dizendo “Ah se fosse tão simples! Se houvessem pessoas más em um lugar, insidiosamente cometendo más ações, e se nos bastasse separa-las do resto de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem e o mal atravessa o coração de todo ser humano. E quem se disporia a destruir uma parte do seu próprio coração?” Nessa perspectiva conseguimos diferenciar um olhar de integração, onde o bem e o mal fazem parte, de um olhar pautado na exclusão, onde só alguns servem.

DESENVOLVIMENTO

Há sete anos atrás, quando já estava apaixonada pela Constelação Familiar, resolvi me dedicar ao estudo aprofundado dessa terapia. Descobertas sobre o campo, as ordens do amor, os vínculos entres os sistemas e tantas outras, ampliaram a minha percepção de mundo, até então ainda muito impregnado pela visão dicotômica da vida. Bert Hellinger, criador da Constelação Familiar, elaborou sobre 3 níveis de consciência sob os quais somos inseridos: Individual; é a consciência do eu, muito útil na fase da infância. É uma consciência baseada no ego, onde existem julgamentos entre bom e ruim. Grupal; é a consciência onde nos percebemos pertencentes a um grupo e faremos de tudo para manter o grupo, com seus valores e padrões. Aqui o serviço está em manter o grupo, também ainda há julgamentos de bom e ruim. Espiritual; aqui nada está fora, tudo pertence ao todo. Aqui não há bom ou ruim, tudo existe. E é nesse nível de consciência que a Constelação Familiar atua, a serviço da reconciliação, onde o todo é sempre maior que as partes, e, por isso, tudo têm que estar incluído (Celma Villa Verde, 2014).

Inicie a Constelação Familiar na CPMA de uma forma espontânea: o Juiz Alfredo Marinho havia ouvido falar sobre a técnica e foi atrás da mesma. Nos conhecemos através de um psicólogo que trabalha em Belford Roxo, Clésio, e nos apresentou. Fizemos um acordo básico que consistia em um grupo quinzenal de constelação familiar, de 3 horas de duração, aberto a homens e mulheres que cumprem medidas alternativas na CPMA de Belford Roxo. Essas horas contam como horas a serem cumpridas na pena dos mesmos. A participação dos réus é de caráter não obrigatório. Assim que iniciei os grupos percebi que apesar de estar respaldada por uma técnica que eu confiava na potência de transformação na vida das pessoas, eu precisava ouvir a demanda daquela situação ainda nova pra mim. Passei a explicar brevemente sobre a Constelação familiar no início dos grupos e a perguntar em que eles achavam que precisavam de ajuda. E as respostas foram diversas, desde ajudas relacionadas a pena que estavam cumprindo; exemplo: não consigo cumprir as horas que devo ou achei a minha pena injusta, até questões relacionados no campo privados; exemplo: tenho dificuldades na relação com a minha filha, meu casamento está muito conturbado. A partir disso pudemos ter trocas mais sinceras sobre ser no mundo, onde todos têm dificuldades e acertos com a existência própria. Onde todos prestam, porque todos existem, cada um com sua história, e cada história com sua riqueza: compostas de medos e forças, acertos e erros, convicções e desconstruções.

Bert Hellinger, em seu livro conflito e paz, explica como o conflito do mundo, por exemplo, uma guerra num país pequeno, revela também sobre algum conflito interno nosso, no campo do privado, do interno de cada um. Ele nos provoca a refletirmos sobre a nossa forma de ser e olhar para a vida como um todo. Nessa lógica podemos compreender que não existe o criminoso como o mal a ser exterminado, e sim um crime onde houve um responsável pelo ato, mas que aconteceu numa sociedade composta por vários outros indivíduos que compões o todo. Aquele crime pertence ao criminoso e todos nós. Isso não significa “passar a mão na cabeça de bandido”, isso significa aceitar que uma parte minha também está colaborando naquela situação porque eu faço parte da vida e tenho um poder sobre ela. Trata-se do inverso, trata-se de se empoderar pela possibilidade de transformação de qualquer coisa que pareça inadequado à sociedade. Assim quebramos a visão daquilo que presta e daquilo que não presta e podemos avistar um cenário menos polarizado: tudo presta e porque em tudo há possibilidade de desenvolvimento e crescimento.

CONCLUSÃO

Através da Constelação Familiar podemos perceber, de forma clara, nosso lugar de potência no nosso sistema familiar, e portanto, no mundo. Aquele que aceita suas origens, têm maiores possibilidades de aceitar a sua força na vida. (Bert Hellinger, 2007 e 2015). O que venho percebendo atrás desse grupo de Constelação Familiar em Belford roxo é que junto com os problemas vieram também às soluções e, a partir do uso dessa ferramenta terapêutica, eu recebi feed backs do tipo: “Doutora, bateram de madrugada na minha casa para tirar satisfação de uma fala que eu realmente tive sobre outro colega. Mas o homem que bateu em minha porta estava alterado e com muita raiva, e eu não. Disse a ele que no dia seguinte resolveria aquela situação, mas que naquele momento ele não estava disponível para aquilo.” Ele concluiu relatando o susto da sua companheira diante daquela reação; ele a respondeu “agora eu estou na minha presença e não desperdiçarei a minha força”. Também presenciei um caso de um homem que não conseguia cumprir suas horas e já estava desistumulado coma quela situação. Após frequentar o grupo, passou a cumprir. No natal de 2016 ele presenteou o grupo com um relógio e disse que agora ele não perde mais a hora.

Percebo que a Constelação Familiar não é um remédio mágico que vá solucionar problemas, mas sim uma ferramenta que serve a ampliação de consciência sobre determinados acontecimentos. Com isso ela ajuda a perceber novas verdades acerca do mesmo, gerando possibilidades de crescimento. Eu ainda não tenho provas científicas de onde a Constelação Familiar pode ajudar na CPMA de Belford Roxo/RJ, mas eu já consigo reconhecer os seus efeitos.

Atualmente esse grupo é composto por outra terapeuta, que reveza comigo os dias em Belford Roxo e também começamos a atendar alguns casos de conflito, indicados pela área responsável. A passos de formiga estamos descobrindo juntos, onde esse movimento vai nos levar. E co-criando uma linha de fuga num espaço ainda tão excludente.

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS:

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão; Petrópolis, Vozes, 1987.

GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos; São Paulo, Perspectiva, 1961.

SOUZA FILHO, Alípio de. Medos, mitos e castigos: notas sobre a pena de morte. São Paulo, Cortez, 2001.

BAPTISTA, Luis Antônio dos Santos. A atriz, o padre e a psicanalista: os amoladores de facas. Em: NASCIMENTO, Maria Lívia do. Anuário do laboratório de subjetividade e política. Niterói/RJ, Departamento de Psicologia UFF, 1992.

SHELDRAKE, Rupert. A sensação de estar sendo observado. Cultrix, 2004.

REICH, Wihelm. Analise do caráter. São Paulo, Martins Fontes, 1998.

VILLA VERDE, Celma Nunes. Constelação familiar: do tradicional ao medial; um guia para o amor. Curitiba, CVR, 2015.

HELLINGER, Bert. Ordens do amor. São Paulo, Cultrix, 2007.

HELLINGER, Bert. Conflito e paz. São Paulo, Cultrix, 2007.

HELLINGER, Bert. Olhando para a alma das crianças. Belo Horizonte, Atma, 2015.

HELLINGER, Bert. A fonte não precisa perguntar pelo caminho. Belo Horizonte, Atma, 2007.

FLAVIA NUNES VILLA VERDE: Psicóloga (PUC-Rio), Orgonoterapeuta (Formação Ana Luz e Pablo Zaffaroni) e Terapeuta de Constelação Familiar (Formação Celma Villa Verde no Brasil, Hellinger Sciencia na Alemanha e CUDEC no México), com especialização em distúrbios alimentares, trauma e pedagogia. Atende em clinica particular, individual e grupos, ministra aulas de Constelação Familiar na Formação Celma Villa Verde e ministra grupos de Constelação Familiar na CPMA de Belford Roxo/RJ.